🎵 Rádio LiberalFM ao Vivo

Ex-preso político de 92 anos narra tortura e prisão na ‘Ilha do Diabo’ durante a ditadura na Amazônia

Facebook
X
WhatsApp
Telegram
Imagem gerada com IA
Imagem gerada com IA

Aos 92 anos, Orlando dos Anjos Silva carrega em sua memória as cicatrizes de um dos períodos mais sombrios da história brasileira: a ditadura militar. Em 1964, com apenas 30 anos, ele foi brutalmente arrancado de sua casa em Belém, no Pará, sob a acusação de ‘subversão’. Seu destino foi a ilha-presídio de Cotijuba, um local que, por décadas, foi sinônimo de violência e confinamento, ganhando o apelido macabro de ‘Ilha do Diabo’ ou ‘Ilha do Inferno’.

A história de Orlando é um testemunho vivo da repressão que se espalhou por todo o país, atingindo também a Amazônia. Economista aposentado, ele relembra não apenas a privação da liberdade, mas a tortura psicológica implacável, a cassação de seu emprego e a longa espera pelo reconhecimento oficial de sua condição de anistiado político, uma reparação tardia pelos crimes cometidos pelo Estado brasileiro.

A Prisão Inesperada e a Acusação de Subversão

Era abril de 1964 quando, por volta das 20h, policiais militares invadiram a residência de Orlando no bairro de São Brás, em Belém. Diante de sua esposa grávida e dos quatro filhos, a casa foi revirada em busca de qualquer item que pudesse incriminá-lo. “Reviraram a casa todinha pra ver se eu tinha arma, qualquer coisa que pudesse me incriminar, mas a única coisa que eu tinha eram livros. Nessa época eu já lia bastante”, conta Orlando.

Parte de seus livros foi confiscada, e o restante, queimado pelo padrasto, temendo novas investidas dos agentes da ditadura. Orlando, então estudante da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Atuariais, já suspeitava da prisão devido à sua atuação política universitária. Ele foi levado primeiramente ao quartel da Polícia Militar, onde permaneceu em um “cubículo” com outros presos por cerca de uma semana, antes de ser transferido para a temida ilha-presídio de Cotijuba.

Cotijuba: A Ilha do Confinamento e o Terror Psicológico da Ditadura

A viagem noturna pela Baía do Guajará, rumo à Ilha de Cotijuba, distante 22 km do centro de Belém, era um prenúncio do que viria. Ao desembarcar e se deparar com um batalhão da Polícia Militar armado, Orlando temeu o pior. “Fiquei com medo, porque eu não sabia o que ia acontecer. Ninguém sabia nada”, recorda. Ele passou mais de um mês detido em uma cela, sob a constante ameaça da tortura psicológica.

“No meu caso, nunca me tocaram, mas a tortura psicológica, essa acontecia. A gente não sabia o que ia acontecer, porque naquela época a gente esperava de tudo”, relata. A ilha, a terceira maior das 42 ilhas de Belém, servia como uma “extensão da ideia de confinamento”, com o propósito de isolar e castigar. A história de Cotijuba como local de repressão remonta a 1930, com a Colônia Reformatória, que se transformou em Educandário Nogueira de Faria e, durante a ditadura, em Colônia Penal, intensificando uma estrutura de terror e castigo físico já existente.

As Consequências da Repressão: Cassação e Luta por Emprego

Durante seu período de prisão, a esposa grávida e os quatro filhos de Orlando foram amparados por amigos da faculdade. Ele foi levado três vezes a Belém para depor na 5ª Companhia de Guardas, um dos principais locais de interrogatório. Após mais de 30 dias sob custódia, Orlando foi solto por “não haver condicionante legal” para mantê-lo preso. No entanto, a ditadura impôs mais uma punição: a cassação de seu emprego nos Correios pelo Ato Institucional nº 1 (AI-1).

Um documento do Fundo do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no Arquivo Público Mineiro, confirma que Orlando foi demitido do Departamento de Correios e Telégrafos em 9 de outubro de 1964, por ordem do então presidente militar Castello Branco. A prisão e os Inquéritos Policiais Militares (IPMs), como o 709 e o UNE-UBES, dificultaram sua empregabilidade. “Passei o restante da minha vida trabalhando para dois de seus antigos professores”, conta, referindo-se a um escritório de economia em Belém que acolhia profissionais perseguidos pelo regime.

A Luta pela Anistia e o Reconhecimento Tardio

Apenas em 12 de maio de 2015, por meio da Portaria nº 361, publicada no Diário Oficial da União, Orlando dos Anjos Silva foi oficialmente reconhecido como anistiado político. Ele recebeu uma indenização de R$ 100 mil e uma pensão mensal pela demissão ilegal nos Correios. Este reconhecimento, embora tardio, representou uma reparação oficial do Estado brasileiro pelos crimes da ditadura.

Hoje, Cotijuba é um destino turístico com praias frequentadas em feriados e férias. As ruínas do antigo presídio e as histórias de seus presos políticos são memórias de um passado que Orlando, aos 92 anos, ainda não revisitou, mas manifesta o desejo de rever o lugar que lhe tirou a liberdade. Pesquisas dos historiadores Jaime Cuéllar e Pere Petit revelam que, nos primeiros meses após o golpe de 1964, mais de 300 pessoas foram presas por razões políticas no Pará, incluindo nomes como Sandoval de Queiroz Barbosa e Humberto de Lucena Lopes, que também foram enviados para Cotijuba.

Memória Viva e o Legado da Ditadura na Amazônia

A história de Orlando é um lembrete contundente de que a repressão da ditadura militar não se limitou aos grandes centros urbanos, mas se estendeu por todo o Brasil, alcançando a Amazônia. A ilha-presídio de Cotijuba, com seu passado de Colônia Reformatória e Educandário, tornou-se um símbolo da violência e do confinamento, onde a “subversão da ordem política e social” era um pretexto para investigar e prender opositores, negando-lhes o direito à ampla defesa e à justiça imparcial.

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) documentou inúmeros casos de violações de direitos humanos durante o regime militar, e histórias como a de Orlando dos Anjos Silva são cruciais para manter viva a memória e garantir que tais atrocidades não se repitam. Quando questionado se viveu com medo, o senhor de 92 anos responde com serenidade: “Eu soube conduzir minha vida. Não fui arrastado pelo que aconteceu”. Sua resiliência e a busca por justiça são um legado para as futuras gerações, reforçando a importância de conhecer e preservar a história. Para mais informações sobre os arquivos da ditadura, você pode consultar o Arquivo Nacional.

Acompanhe o Portal Pai D’Égua para se manter informado sobre as notícias mais relevantes, análises aprofundadas e reportagens que conectam o passado ao presente, sempre com o compromisso de oferecer conteúdo de qualidade e contextualizado para você.

ANÚNCIOS

// bombando!

// Veja também