“Sem os rios, sem a floresta, a gente perde a nossa história”. A frase da pesquisadora indígena Manoela Karipuna resume um debate que, em 2026, ocupa governos, universidades e conferências internacionais: o futuro da Amazônia. No Pará, essa discussão ganha um contorno especial, impulsionada pela crescente produção científica de pesquisadores indígenas que conectam diretamente o conhecimento acadêmico com seus territórios, línguas e modos de vida nas comunidades.
Este movimento representa uma virada histórica. Após séculos de exclusão, os povos originários do Brasil, e em particular da Amazônia Legal, estão ocupando as universidades e redefinindo a forma como o conhecimento é gerado e compartilhado. É uma jornada que não apenas resgata narrativas, mas também propõe soluções inovadoras para desafios contemporâneos, com um olhar atento às particularidades do ecossistema paraense.
A ascensão da ciência indígena no Pará
A última década testemunhou um aumento notável na presença indígena no ensino superior brasileiro, com um crescimento superior a 300%. Somente na Amazônia Legal, mais de 53 mil estudantes indígenas ingressaram em universidades públicas entre 2012 e 2022. Esse avanço, embora recente em um país com mais de 500 anos de história marcada pela marginalização desses povos, é um divisor de águas.
Para Manoela Karipuna, do povo Karipuna, a importância vai além da simples presença. “Por muito tempo foram os outros que contaram a nossa história. Agora somos nós que estamos escrevendo quem nós somos”, afirma. Essa nova perspectiva enriquece o ambiente acadêmico, trazendo para o centro do debate uma epistemologia própria, forjada na vivência e na observação direta da natureza.
Conhecimento ancestral e a urgência ambiental
A ciência indígena é um vasto corpo de conhecimentos construído ao longo de gerações, fundamentado na observação minuciosa da natureza, no convívio com o território e na transmissão oral entre famílias e comunidades. Esse saber orienta práticas essenciais, como o uso de plantas medicinais, o cultivo sustentável da roça, a leitura dos ciclos ambientais e a preservação de línguas e culturas.
Em um cenário global onde as mudanças climáticas e a conservação ambiental são temas centrais, esses conhecimentos ancestrais tornam-se aliados indispensáveis da produção acadêmica. No Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19), pesquisadores paraenses como Manoela Karipuna, Emiliano Kaba e Vera Arapium exemplificam essa fusão, desenvolvendo estudos que partem de suas experiências nos territórios para abordar meio ambiente, linguagem e organização social.
“É um privilégio ver nossos jovens levando a sabedoria dos mais velhos para dentro da universidade. Eles não esquecem suas raízes, mas as fortalecem com novos conhecimentos”, comenta Dona Raimunda, liderança comunitária do Baixo Tapajós.
Entre a floresta e os laboratórios: trajetórias inspiradoras
No campo da biologia, o pesquisador Emiliano Kaba, do povo Munduruku, trilhou sua jornada a partir de uma profunda curiosidade pela natureza. Formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ele atua no resgate e manejo de animais silvestres em áreas urbanas, lidando com espécies como serpentes, preguiças e iguanas, muitas vezes deslocadas pelo desmatamento e pela expansão urbana.
“O contato direto com o meio vivo permite entender, na prática, o funcionamento da natureza”, explica Emiliano, que também mantém forte vínculo com a Terra Indígena Munduruku, no sudoeste do Pará. Lá, ele acompanha práticas de uso dos recursos naturais baseadas no equilíbrio ambiental. “A gente aprende como extrair recursos sem causar danos severos ao ecossistema. O objetivo é integrar o conhecimento universitário aos saberes tradicionais”, ressalta.
Manoela Karipuna, doutora em antropologia pela UFPA, investiga como o conhecimento produzido por mulheres indígenas sustenta a vida nos territórios. Sua pesquisa analisa práticas como o uso de plantas medicinais, o cultivo da roça, a participação em rituais e a atuação política, compreendendo como esses saberes são transmitidos e mantêm o equilíbrio entre território, cultura e meio ambiente. “A história da aldeia surge a partir da memória e da oralidade das mulheres”, detalha.
A pesquisadora Vera Arapium, mestra em diversidade sociocultural, foi a primeira estudante indígena a ingressar no mestrado de seu programa em Fortaleza. Sua trajetória acadêmica começou na UFPA, onde pesquisou o preconceito linguístico e a perda de línguas indígenas no Baixo Tapajós. Atualmente, ela coordena ações de fortalecimento de línguas indígenas no Pará, com foco na formação de professores e na produção de material didático. “Nosso trabalho é fortalecer as línguas indígenas com os povos com os quais atuamos”, afirma Vera, destacando o papel dos professores e monitores indígenas na transmissão do Nheengatu e outras línguas.
Desafios persistentes na jornada acadêmica
Apesar do crescimento da presença indígena no ensino superior, a permanência ainda é um desafio significativo. Na Amazônia, menos de 10% dos estudantes indígenas que ingressaram entre 2012 e 2022 concluíram o curso, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). As barreiras são múltiplas e complexas.
“O conteúdo teórico apresenta desafios na leitura e na pesquisa. Muitos indígenas não têm familiaridade com textos acadêmicos em português ou inglês”, aponta o biólogo Emiliano Kaba. A distância geográfica também é um fator crucial. “Belém fica a cerca de 1.800 quilômetros da minha terra. A saudade da família dificulta a permanência”, lamenta. Manoela Karipuna complementa, mencionando as disputas simbólicas: “As pessoas questionam nosso pertencimento, como se ser indígena não tivesse direito de ocupar esses espaços”.
Mesmo diante desses obstáculos, a resiliência e a determinação dos pesquisadores indígenas têm ampliado sua voz na universidade e na produção científica, trazendo para o centro do debate conhecimentos que partem de seus próprios territórios. “A ciência tem o papel de entender o mundo e buscar equilíbrio no uso dos recursos para as próximas gerações”, conclui Emiliano, sublinhando a responsabilidade inerente a essa nova forma de fazer ciência.
Para saber mais sobre as iniciativas e os desafios dos povos indígenas no Pará, continue acompanhando as reportagens aprofundadas do Portal Pai D’Égua. Nosso compromisso é trazer informação relevante e contextualizada, sempre com um olhar atento às realidades e às transformações que moldam o futuro da nossa região. Acesse o site da UFPA para mais informações sobre programas de inclusão e pesquisa.