A cada ano, o Brasil enfrenta o desafio persistente de reduzir a mortalidade materna, um indicador crítico de saúde pública que reflete a qualidade da assistência prestada às mulheres durante a gestação, o parto e o puerpério. Dados recentes do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus) revelam que a razão de mortalidade materna no país atingiu 56,4 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos em 2024, totalizando 1.347 vidas perdidas. O cenário é preocupante, mas especialistas apontam que a maioria dessas ocorrências — cerca de nove em cada dez — poderia ser evitada com políticas públicas eficazes e acesso adequado ao sistema de saúde.
A importância do pré-natal na segurança da gestante
O acompanhamento médico precoce é a ferramenta mais poderosa para reverter esses números. Maria Isabel Peixoto, chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que um pré-natal de qualidade permite identificar variáveis de risco antes que se tornem complicações graves. Segundo a especialista, o objetivo é entregar uma paciente preparada para um parto monitorizado, em um ambiente com assistência qualificada, garantindo um desfecho favorável para mãe e bebê.
Para pacientes como a técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, de 41 anos, o suporte especializado faz toda a diferença. Grávida de 18 semanas e com histórico de hipertensão e diabetes gestacional, ela encontrou na Maternidade-Escola a segurança necessária para seguir com a gestação. A mudança de hábitos e o monitoramento constante transformaram o que poderia ser um período de incertezas em uma fase mais tranquila e controlada.
Causas evitáveis e o papel da equipe multidisciplinar
As estatísticas apontam que 66% das mortes maternas no Brasil decorrem de causas obstétricas diretas. Entre os principais fatores de risco estão as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações relacionadas ao aborto. Para combater esse quadro, a atuação de uma equipe multidisciplinar é fundamental. O enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), defende que a colaboração entre diferentes profissionais é o pilar de um atendimento humanizado e seguro.
O trabalho de Costa, que já realizou mais de 5 mil partos desde 2009, exemplifica o impacto positivo dessa abordagem no Sistema Único de Saúde (SUS). No Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas, a autonomia conferida à enfermagem obstétrica, amparada pela Lei 7.498 de 1986, permitiu que a unidade expandisse sua capacidade de atendimento de cerca de 90 para 600 partos anuais, tornando-se referência regional.
Metas para o futuro e conscientização
O Brasil estabeleceu a meta ambiciosa de reduzir a mortalidade materna para 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030. O Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, celebrado em 28 de maio, serve como um lembrete anual da necessidade de fortalecer os direitos da gestante e da puérpera. A luta pela saúde da mulher exige um compromisso contínuo com a melhoria da infraestrutura hospitalar e a valorização das equipes que atuam na ponta do sistema.
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