A trajetória de Fernanda Barbosa, uma jovem de 29 anos residente em Canaã dos Carajás, no sudeste paraense, é um retrato fiel dos desafios enfrentados por milhões de mulheres que convivem com a endometriose. Após anos de dores incapacitantes, hemorragias e um diagnóstico que tardou a chegar, ela encontrou no Hospital da Mulher do Pará (HMPA), em Belém, a chance de retomar sua qualidade de vida através de um procedimento cirúrgico inédito na unidade: o reimplante ureteral.
O caso de Fernanda era de extrema gravidade. A endometriose profunda, em um avanço silencioso e agressivo, comprometeu múltiplos órgãos, atingindo severamente o sistema urinário. A obstrução dos ureteres — canais que levam a urina dos rins para a bexiga — fez com que o fluxo urinário retrocedesse, resultando em insuficiência renal crônica. Antes de chegar à capital para o tratamento especializado, a paciente já dependia de sessões de hemodiálise para sobreviver, evidenciando o estágio crítico da doença.
Complexidade cirúrgica e o desafio do diagnóstico tardio
A cirurgia realizada em Fernanda não foi apenas um marco técnico para o Hospital da Mulher, mas um exemplo de integração multidisciplinar no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com o médico ginecologista Mário Simões, especialista em endometriose, a intervenção exigiu a atuação conjunta de equipes de ginecologia, urologia, cirurgia geral, coloproctologia e nefrologia.
Durante o procedimento, os cirurgiões precisaram remover as aderências causadas pelos focos da doença e retirar partes dos ureteres que estavam obstruídas. A técnica de reimplante ureteral foi aplicada para conectar novamente esses canais à bexiga, visando restaurar a função renal plena. Devido à agressividade da condição, Fernanda também foi submetida a uma histerectomia e ooforectomia (retirada do útero e ovários), uma vez que a doença já havia se espalhado por trompas, intestino e bexiga.
A escolha pela videolaparoscopia foi fundamental para o sucesso do caso. Considerada o “padrão ouro” para o tratamento da endometriose profunda, essa técnica minimamente invasiva utiliza pequenas incisões e câmeras de alta resolução, o que garante maior precisão ao cirurgião, reduz o trauma tecidual e acelera significativamente o processo de recuperação pós-operatória da paciente.
Endometriose no Brasil: um cenário de subnotificação e dor silenciosa
O drama vivido por Fernanda Barbosa não é isolado. Estima-se que a endometriose afete cerca de 8 milhões de brasileiras. Trata-se de uma doença inflamatória crônica onde o tecido similar ao endométrio cresce fora do útero. Segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS, entre 2015 e 2025, o Brasil registrou mais de 127 mil internações relacionadas à doença. Para saber mais sobre as diretrizes nacionais de atenção à saúde da mulher, acesse o portal do Ministério da Saúde.
Um dado que chama a atenção de especialistas é a disparidade regional nas notificações. Enquanto o Sudeste lidera com mais de 54 mil internações, a região Norte registrou cerca de 8,4 mil casos no mesmo período. Essa diferença, contudo, pode não indicar uma menor incidência da doença no Pará ou estados vizinhos, mas sim um gargalo no diagnóstico precoce e uma possível subnotificação, já que a doença pode ser assintomática em até 20% dos casos ou ter seus sintomas confundidos com dores menstruais comuns.
Perspectivas de recuperação e acompanhamento contínuo
Apesar da complexidade da cirurgia, as perspectivas para Fernanda são otimistas. A coordenadora do serviço de ginecologia do HMPA, Karina Resende, explica que a probabilidade de a doença retornar é baixa, mas o acompanhamento médico será vital. Por ser jovem, a paciente passará por reposição hormonal e monitoramento constante da função renal, com a expectativa de que ela possa, gradualmente, deixar a dependência da hemodiálise.
Para Fernanda, o sentimento é de gratidão e renovação. Ela destaca que o acesso a um tratamento de alta complexidade pelo SUS foi o diferencial entre a desistência e a cura. A estrutura oferecida pelo Governo do Pará através do Hospital da Mulher consolida a unidade como um centro de referência para patologias femininas complexas, garantindo que pacientes do interior do estado tenham acesso à mesma tecnologia disponível nos grandes centros privados.
A história de superação em Canaã dos Carajás serve como um alerta para a importância de ouvir o próprio corpo e buscar auxílio médico especializado diante de dores pélvicas persistentes. O diagnóstico precoce continua sendo a ferramenta mais eficaz para evitar que a endometriose evolua para quadros de falência orgânica, como o enfrentado por Fernanda.
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