A busca por justiça e responsabilização no caso da morte de Bernardo Cavalleiro de Macedo, de 23 anos, ganha um capítulo crucial nesta segunda-feira, 1º de junho. O Conselho Regional de Medicina (CRM) do Pará realiza o julgamento dos médicos Augusto Cezar Sales, cirurgião torácico, e Cesar Collyer, anestesista, ambos acusados pela família de Bernardo de cometerem erros médicos que teriam levado ao falecimento do jovem em 2023. A família, representada pelo pai Roberto Macedo e pela madrasta Odete Macedo, clama pela cassação do registro profissional dos envolvidos, argumentando que a falta de humanidade e a omissão de informações foram determinantes para o desfecho trágico.
A comoção em torno do caso mobilizou familiares, amigos e integrantes do Movimento pela Vida (Movida), que, na véspera do julgamento, realizaram uma manifestação na Praça da República, em Belém. O ato não apenas pedia justiça por Bernardo, mas também por outras vítimas de supostos erros médicos, evidenciando a crescente preocupação da sociedade com a segurança do paciente e a ética profissional na área da saúde.
A jornada médica de Bernardo e as alegações da família
A história de Bernardo começou a mudar em 29 de julho de 2023, quando ele deu entrada em um hospital particular de Belém com um quadro de mal-estar geral. O diagnóstico inicial foi de derrame pleural, uma condição caracterizada pelo acúmulo de líquido entre o pulmão e a parede torácica. Após uma drenagem e biópsia, confirmou-se tuberculose, uma doença que, segundo a família, é tratável e curável com medicação.
Bernardo já estava em casa, recuperado e sem sintomas como dor, febre ou mal-estar, quando o médico Augusto César Sales, responsável pela drenagem, agendou uma consulta de acompanhamento. Foi nesse momento que a família foi convencida a realizar um procedimento chamado pleuroscopia. Roberto Macedo relata que o médico descreveu a pleuroscopia como um procedimento urgente, de baixo risco e rápido, essencial para evitar sequelas pulmonares e que seria realizado com anestesia peridural.
Controvérsias e o agravamento do quadro
A versão apresentada à família, contudo, divergia da realidade, conforme as descobertas posteriores. “Depois descobrimos que não era nada disso. Não era de urgência. A pleuroscopia é eletiva; você pode escolher se faz ou não”, explicou Roberto Macedo. Ele ressaltou que, ao contrário do que foi informado, a pleuroscopia é um exame de risco, pois exige a intubação do paciente. A família alega que Bernardo foi intubado sem seu consentimento ou o conhecimento dos familiares, e que não foram realizados exames pré-operatórios, avaliação anestésica ou análise de risco cirúrgico.
O procedimento, que deveria durar cerca de 50 minutos, estendeu-se por cinco horas. Durante a pleuroscopia, Bernardo teria sofrido lacerações na traqueia e perfuração do pulmão esquerdo. Após o procedimento, os dois médicos levaram o jovem para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A família relata que não conseguiu contato com os médicos e que a equipe do hospital inicialmente minimizou a situação. Posteriormente, prontuários médicos revelaram que Bernardo foi levado à UTI acompanhado apenas por um maqueiro, apresentando pneumomediastino (ar na cavidade entre os pulmões), além das lesões na traqueia e perfuração pulmonar, que não teriam sido corretamente interpretadas pela equipe médica.
O desfecho trágico e a luta por verdade
O quadro de Bernardo piorou com o surgimento de enfisema subcutâneo cervical bilateral (ar sob a pele do pescoço) e coágulos sanguíneos nas vias respiratórias. A família tentou contato com os médicos Augusto César e Cesar Collyer, mas não obteve resposta. Bernardo foi entubado novamente, o que, segundo Roberto Macedo, agravou o pneumomediastino ao forçar mais ar para dentro do corpo. Essa compressão mecânica sobrecarregou o coração do jovem, culminando em uma parada cardiorrespiratória e sua morte.
Roberto Macedo descreve o choque ao ver o corpo do filho, que estava irreconhecível devido ao inchaço. “O Bernardo era um jovem saudável, de 2 metros de altura, sem vícios e comorbidades. Quando eu vi o corpo, ele estava irreconhecível. O Bernardo estava tão inchado que parecia um filme de ficção científica. Quase não reconheci o meu filho. Eu não aceitei”, lamentou. A família registrou um boletim de ocorrência e solicitou o serviço de verificação de óbito. No Instituto Médico Legal (IML), a médica legista inicialmente considerou a morte suspeita devido às lesões identificadas, mas o laudo final apontou COVID-19 como causa, o que a família contesta veementemente.
A dor inconsolável e o clamor por responsabilidade
A dor da perda é palpável nas palavras de Odete Macedo, madrasta de Bernardo. Ela o conheceu quando ele tinha seis anos e o descreve como “fofinho, meigo, carinhoso e carismático”. Emocionada, enquanto segurava cartas e medalhas de matemática do enteado, Odete expressou a profundidade de seu luto. “Eu tinha um amigo, um filho, e o perdi. Nenhum pai ou mãe merece passar por essa dor. Foi tudo muito cruel o que aconteceu com ele”, desabafou. Ela enfatiza que Bernardo foi uma parte essencial de sua vida, sua “preparação materna”, e que faria de tudo para tê-lo de volta.
Além da dor pessoal, a família enfrentou obstáculos institucionais. O hospital particular envolvido no caso se recusou a entregar a documentação completa, sendo posteriormente condenado por litigância de má-fé em uma ação judicial. Essa conduta, segundo os familiares, reforça a percepção de uma tentativa de ocultar informações.
O papel do CRM e os desdobramentos legais
O julgamento no CRM é um marco importante na busca por justiça. O Conselho recebeu, por unanimidade, a denúncia sobre a conduta dos médicos Augusto Cezar Sales e Cesar Collyer para apurar possíveis violações éticas. A família espera que o CRM atue com responsabilidade e imparcialidade, condenando os profissionais com a cassação de seus registros. “O que o CRM julgará é o fato de eles não terem anotado as informações no prontuário e não terem levado o paciente para a UTI para passar para a equipe o que tinha acontecido. Se esses médicos tivessem agido com humanidade, o Bernardo estaria vivo”, afirmou Roberto Macedo, destacando a omissão como uma falha ética grave.
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Pará informou que todos os processos em tramitação seguem o sigilo processual, conforme o Código de Processo Ético-Profissional, e que, portanto, não se manifesta sobre casos específicos. Paralelamente ao julgamento ético, os médicos também são réus em uma ação penal por homicídio culposo majorado, com a denúncia do Ministério Público já acatada pelo juiz da 9ª Vara Criminal de Belém, Marcus Alan de Melo Gomes, o que indica que o caso terá desdobramentos significativos na esfera criminal.
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