A cacauicultura paraense emerge como uma poderosa ferramenta de recuperação ambiental e desenvolvimento econômico sustentável. Um levantamento minucioso, realizado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e compartilhado com a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), revela que, desde meados da década de 1990 até o ano passado, impressionantes 165 mil hectares de áreas degradadas no estado foram revitalizados por meio do plantio de cacau em Sistemas Agroflorestais (SAFs). Essa área equivale a cerca de 231 mil campos de futebol, demonstrando a magnitude do impacto positivo dessa cultura.
Essa iniciativa não apenas restaura ecossistemas, mas também oferece uma alternativa produtiva e rentável para agricultores, alinhando os anseios de preservação ambiental com a geração de renda. O modelo de SAFs, que integra árvores florestais com culturas agrícolas, como o cacau, tem se mostrado eficaz na recuperação do solo, na conservação da biodiversidade e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, consolidando o Pará como um exemplo de produção sustentável na Amazônia.
Cacau: um aliado ambiental e econômico para o Pará
O monitoramento contínuo da Ceplac, em colaboração com a Sedap, sublinha a robustez ambiental da lavoura cacaueira. A cultura do cacau, quando inserida em áreas já alteradas, demonstra uma capacidade notável de regeneração. Municípios como Tomé-Açu, na região de integração do Rio Capim, que desenvolveu seu próprio Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (Safta), e diversas localidades ao longo da Rodovia Transamazônica (BR-230), incluindo Altamira, Medicilândia e Brasil Novo, destacam-se nesse processo.
Uma pesquisa recente da Universidade Federal do Pará (UFPA), conduzida pelo Campus de Altamira, na região de integração do Xingu, trouxe à luz uma mudança significativa no padrão de implantação das lavouras de cacau. Historicamente, a cultura era frequentemente estabelecida em áreas de floresta. Contudo, o estudo aponta que as novas plantações estão sendo predominantemente instaladas em terras já alteradas, um avanço crucial para a conservação da floresta primária e para o cumprimento das metas de sustentabilidade do Governo do Estado.
Transformação de paisagens: o ciclo virtuoso dos sistemas agroflorestais
O professor Miquéias Calvi, da Faculdade de Engenharia Florestal da UFPA, que liderou o estudo na Transamazônica, descreve esse fenômeno como um ciclo virtuoso. Ele explica que o reaproveitamento de áreas já alteradas, especialmente pastagens degradadas ou em estágio inicial de degradação e áreas de sucessão secundária, é fundamental. “Isso é importante, pois mostra que as novas lavouras de cacau não estão avançando sobre as áreas de florestas primárias; o componente ambiental é muito interessante nestes sistemas de produção”, afirma Calvi.
Os dados da pesquisa são contundentes: 81% das novas lavouras de cacau implantadas a partir de 2021 estão em áreas alteradas ou degradadas. Este dado contraria padrões observados em outras regiões do Brasil e do mundo, posicionando o Pará na vanguarda da agricultura sustentável. Além do benefício ambiental, a recuperação dessas áreas oferece um retorno econômico direto aos produtores. “Áreas que não estão trazendo nenhum tipo de rendimento ao produtor, em um curto espaço de tempo se tornarão produtivas. Isso mostra uma potencialidade ambiental e econômica da lavoura cacaueira”, defende o professor.
Contudo, Calvi alerta para a necessidade de políticas públicas robustas. É crucial que órgãos de fomento apoiem a produção e distribuição de mudas e sementes florestais. Sem esse suporte, há o risco de que as lavouras em áreas alteradas se reproduzam sob o modelo de monocultivo a pleno sol, pois o solo degradado não possui a mesma capacidade de regeneração natural de um solo virgem. Instituições como Sedap, Seaf (Secretaria de Estado de Agricultura Familiar), Ideflor-Bio (Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará) e secretarias municipais de meio ambiente têm um papel vital nesse fomento.
Políticas públicas e o avanço da cacauicultura sustentável
O Governo do Pará tem atuado ativamente para consolidar a cacauicultura como pilar da sustentabilidade. O coordenador do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau (Procacau), engenheiro agrônomo Ivaldo Santana, destaca que a Lei estadual nº 7.093, de 16 de janeiro de 2008, que criou o Funcacau (Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará), estabelece que o cacau deve ser plantado exclusivamente em SAFs e em áreas alteradas, não em florestas nativas. “Nós estamos cumprindo essa orientação da legislação e do Governo do Estado do Pará”, ressalta Santana.
Por meio da Sedap e do Funcacau, o estado investe na produção e aquisição de sementes híbridas da Ceplac, distribuindo cerca de 13,5 milhões de sementes por ano aos produtores. Esse incentivo resulta em um crescimento anual de aproximadamente 9 mil hectares de novas áreas de cacau e a incorporação de mil novos produtores à cadeia produtiva a cada ano. O Ideflor-Bio também contribui, produzindo e distribuindo gratuitamente mudas de essências florestais para sombreamento, essencial para a formação dos SAFs. Além disso, mudas de banana são distribuídas para sombreamento provisório, garantindo o desenvolvimento inicial da cultura.
Outra iniciativa governamental relevante é o Programa Territórios Sustentáveis (PTS), um dos eixos do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA). O PTS visa incentivar produtores rurais em regiões sob pressão de desmatamento a adotarem a produção sustentável e a restauração florestal. Mais de 45 municípios já aderiram ao PTS, que prevê a implantação de um hectare de Sistemas Agroflorestais em áreas degradadas ou desmatadas, com aporte de insumos e serviços via convênios com as prefeituras.
Experiências de sucesso e o futuro do cacau paraense
O impacto positivo da cacauicultura em SAFs foi amplamente debatido no Fórum da Cacauicultura, parte integrante do Festival Internacional do Chocolate e de Cacau de Altamira – Chocolat Xingu, realizado de 11 a 14 de junho. O evento, que também teve uma edição em Belém em abril, é um espaço crucial para a troca de conhecimentos e experiências. Ivaldo Santana enfatiza que é a programação de maior interesse para os produtores, pois oferece palestras e painéis com especialistas que trazem informações atualizadas sobre plantio, colheita, controle de pragas e desenvolvimento da cultura.
Entre os depoimentos inspiradores, destaca-se o de Francisco de Morais, conhecido como Chico do Chagas, de Brasil Novo. Com 44 anos de experiência no plantio de cacau na Transamazônica, ele compartilhou sua transição bem-sucedida para o Sistema Agroflorestal em sua propriedade de 50 hectares, após receber orientações da Ceplac. “Eu achava que não ia dar certo substituir a plantação de pleno sol para agroflorestal. Mas, hoje eu posso dizer que já colhi os resultados. O cacau é sadio, produzo bem, não tem ataque de podridão e nem vassoura de bruxa. Tenho cacaueiro de mais de 40 anos que está sadio. Faço o replantio e o cacau não morre”, assegura o agricultor, que apresentou imagens dos resultados de seu trabalho.
Essas experiências reforçam o potencial do cacau paraense não apenas como um produto de excelência, mas como um agente transformador de paisagens e vidas, impulsionando a bioeconomia e a sustentabilidade na região. O Portal Pai D’Égua continuará acompanhando de perto essas e outras iniciativas que promovem o desenvolvimento e a preservação do nosso estado, trazendo sempre informações relevantes e contextualizadas para você. Fique por dentro das últimas notícias e aprofunde seu conhecimento sobre os temas que impactam a sua vida e a sua comunidade.
As informações apresentadas nesta matéria são baseadas em dados divulgados por órgãos e autoridades competentes.