O estado do Pará se destaca no cenário nacional por apresentar uma das maiores taxas de informalidade do Brasil, com mais de 56% dos trabalhadores atuando sem carteira assinada ou qualquer tipo de proteção trabalhista. Este dado, revelado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2025, pinta um quadro complexo da realidade econômica local. Dentro desse contexto desafiador, um número ainda mais notável emerge: 52,09% dos domicílios paraenses são chefiados por mulheres, conforme estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE/PA), também com base na PNAD Contínua do 4º trimestre de 2025.
Neste 1º de Maio, Dia do Trabalhador, o Portal Pai D’Égua lança um olhar aprofundado sobre a rotina e os sonhos dessas mulheres que, em meio à informalidade, se tornam o pilar de suas famílias. Elas representam a resiliência e a capacidade de adaptação que marcam o cotidiano de grande parte da população paraense, equilibrando a ausência de garantias trabalhistas com a autonomia e a necessidade de prover o sustento.
O Cenário da Informalidade no Pará e o Papel Feminino
A informalidade no Pará não é apenas um número; é a realidade de milhões de pessoas que encontram no comércio, nos serviços e no trabalho por conta própria a única porta de entrada para o mercado. Para esses trabalhadores, a jornada é muitas vezes longa, a renda é variável e diretamente dependente do movimento diário, e a ausência de benefícios como férias remuneradas, 13º salário e aposentadoria é uma constante. No entanto, para muitos, essa modalidade de trabalho também oferece uma flexibilidade e independência que, em certas circunstâncias, são cruciais para a organização da vida familiar.
A predominância feminina na chefia dos lares paraenses adiciona uma camada de complexidade a essa dinâmica. Mulheres como Maria Fátima, Maria Elisete e Silvana não apenas buscam a subsistência, mas carregam a responsabilidade de garantir o bem-estar e o futuro de seus filhos e dependentes. Suas histórias são um testemunho da força e da determinação em um ambiente econômico que exige constante superação. Para mais informações sobre o mercado de trabalho no Brasil, consulte o site do IBGE.
Ver-o-Peso: Tradição e Sustento Familiar na Informalidade
No coração de Belém, o icônico mercado do Ver-o-Peso pulsa com a energia de gerações de trabalhadores informais. É ali que Maria Fátima da Silva Ferreira, de 55 anos, construiu sua vida profissional. Há 37 anos, ela segue os passos da mãe, Osvaldina, que a introduziu ao trabalho de “boeira” (vendedora de refeições) aos 14 anos. “Comecei a trabalhar aqui com 14 anos, porque minha mãe já trabalhava. Foi assim que tudo começou”, relata Maria Fátima, que hoje comanda seu próprio box de refeições.
O Ver-o-Peso não é apenas seu local de trabalho, mas um lar e a fonte de sua independência. “O trabalho no Ver-o-Peso me ajudou a criar meus filhos. Foi daqui que saiu tudo”, afirma com orgulho. Sua rotina é exaustiva: começa às 6h da manhã, com a busca por peixes frescos, a limpeza do box e o preparo de arroz e feijão, estendendo-se por mais de 11 horas. E, ao chegar em casa, a jornada continua. Apesar do esforço contínuo e da rara folga, ela resume sua dedicação com uma frase que ecoa a realidade de tantas: “Tinha que ser o Dia das Trabalhadoras.”
A Luta Diária das Diaristas e a Busca por Respeito
A realidade da informalidade também se manifesta de forma contundente no trabalho doméstico. No Pará, cerca de 196 mil pessoas atuam como domésticas, e um dado alarmante do DIEESE/PA revela que 85,2% delas não possuem carteira assinada. Entre essas mulheres está Maria Elisete Souza da Silva Brito, de 47 anos, moradora de Ananindeua, que optou por ser diarista pela flexibilidade, embora reconheça a instabilidade.
“É a minha principal fonte de renda. Mas não dá pra sustentar uma casa só com isso”, desabafa Maria Elisete. Sua rotina começa antes do sol nascer, por volta das 5h30, preparando-se e cuidando da filha antes de iniciar a jornada. Para chegar aos diferentes locais de trabalho, ela pedala por mais de uma hora diariamente, enfrentando o trânsito pesado entre Jaderlândia, em Ananindeua, e o centro de Belém. “O que eu gostaria que mudasse para melhorar de verdade a minha rotina era que houvesse mais respeito dos motoristas com os ciclistas”, pontua, destacando um desafio comum a muitos trabalhadores informais que dependem de meios de transporte alternativos. Ao fim do dia, o trabalho em casa a espera, mas ela conta com o apoio fundamental da filha, seu “porto seguro”.
Maternidade, Autonomia e Resistência no Volante
Fora das feiras e dos lares, a informalidade também se impõe nas ruas da cidade, onde Silvana Viana Borges, de 53 anos, atua como taxista há 16 anos. Sua rotina é uma maratona: “Trabalho à noite com clientes da cooperativa e particulares. Depois sigo com o trabalho em casa, limpando, lavando, cozinhando e organizando”, descreve. A maternidade foi a grande motivação para Silvana buscar essa profissão, que lhe prometia alguma flexibilidade de horário para cuidar do filho.
A adaptação não foi fácil. “No começo houve resistência, porque era uma profissão muito masculina. Mas fui me adaptando e construindo minha clientela”, lembra. Hoje, sua renda depende exclusivamente do próprio esforço diário, um testemunho de sua persistência. “Dá pra viver, mas com muito esforço, dedicação e sacrifício”, conclui, resumindo a realidade de muitas mulheres que, como ela, desbravam caminhos em profissões desafiadoras para garantir o sustento familiar.
As histórias de Maria Fátima, Maria Elisete e Silvana são apenas um vislumbre da realidade de milhares de mulheres paraenses que, com coragem e resiliência, movem a economia informal e sustentam seus lares. O Portal Pai D’Égua se compromete a continuar trazendo informações relevantes, atuais e contextualizadas sobre os temas que impactam a vida dos nossos leitores, oferecendo um jornalismo de qualidade e aprofundado. Continue acompanhando nosso portal para se manter bem informado sobre os mais diversos assuntos.