Moradores do bairro de Perus, na zona noroeste da capital paulista, denunciam uma suposta fraude na primeira audiência pública, de caráter consultivo, convocada pela prefeitura e pelo governo estadual. O evento, realizado para debater os impactos da implantação de um incinerador de lixo na região, teria sido marcado pela exclusão da comunidade local e pelo recrutamento de pessoas de fora do território, em uma tentativa de desmobilizar a oposição ao empreendimento.
fraude: cenário e impactos
A controvérsia gira em torno da proposta de uma Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, projeto da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), inicialmente voltado para resíduos de saúde e agora expandido para resíduos gerais. A companhia remete os estudos e documentos à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), responsável pelo licenciamento ambiental.
A Denúncia de Manipulação na Audiência Pública
A audiência pública, ocorrida em uma segunda-feira (1º) no Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, no bairro Vila Fanton, foi palco das acusações. Segundo apuração, ônibus com passageiros não reconhecidos pelos moradores de Perus encostaram no local. Essas pessoas formaram uma longa fila antes dos habitantes do bairro, lotando o espaço e se inscrevendo rapidamente para discursar, supostamente com o objetivo de impedir que os moradores locais levassem seus questionamentos e críticas ao microfone.
Uma pessoa contatada pela reportagem confirmou ter recebido dinheiro para comparecer à audiência e se apresentar como moradora de Perus. Ela relatou que busca oportunidades em grupos que formam público para programas de auditório e que havia um homem responsável por orientá-los sobre as reações a manifestar, simulando concordância ou reprovação, dependendo da situação. A identidade dessa pessoa foi preservada para evitar retaliações.
Com a capacidade máxima do teatro do CEU atingida, cerca de 500 moradores de Perus foram impedidos de entrar e participar. Funcionários instalaram dois televisores no salão de entrada, mas o espaço ainda foi insuficiente, deixando muitas pessoas, incluindo crianças, aguardando sob chuva. Do lado externo, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) estavam em formação, armados com escudos e gás de pimenta, e teriam proibido a fala de vereadores, acusação rebatida pela assessoria da prefeitura, que negou o uso de equipamentos de menor potencial ofensivo.
O Projeto da URE Bandeirantes e a Resistência Comunitária
O engenheiro químico Mario Bortoto, uma das lideranças do movimento de resistência, critica o projeto da URE, classificando-o como ultrapassado em outras partes do mundo. Ele expressa apreensão não apenas com as cinzas tóxicas que seriam liberadas, mas também com o aumento significativo do tráfego de caminhões na região. Bortoto questiona a capacidade da prefeitura de fiscalizar os parâmetros de operação do incinerador, caso seja aprovado.
Os moradores e ativistas ambientais aliados propõem uma alternativa ao incinerador: a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. A ideia é valorizar a relação com a natureza e a resistência política que caracteriza o lugar, afastando-se de lógicas predatórias e dando continuidade a um modelo já adotado com uma agência de turismo local.
A química e consultora da WWF Brasil, Thais Santos, outra líder do movimento, acompanhou desde a adolescência os levantes anteriores. Ela lamenta a manipulação da audiência, que deveria ser um espaço democrático, e observa que o horário do evento (início da tarde de segunda-feira) coincide com o expediente da maioria dos moradores, dificultando a participação da classe trabalhadora.
Perus: Um Bairro com Histórico de Lutas e Estigmas Sociais
A região de Perus carrega um histórico de estigmas e lutas. É conhecida pela proximidade com a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, onde corpos de perseguidos políticos foram escondidos durante a ditadura militar, e com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, notório por violações de direitos humanos.
A comunidade também enfrenta desafios sociais e de saúde. Mario Bortoto argumenta que a aprovação do incinerador agravará os problemas de saúde em uma população já carente de atendimento adequado, ligando a falta de recursos humanos ao preconceito com a região. O Mapa da Desigualdade de 2024 aponta uma expectativa de vida média de 62 anos em Perus, além de destacar a região no 5º lugar em cobertura vegetal, mas também no 6º em emissão de poluentes atmosféricos e no 66º em Pontos de Entrega Voluntária (PEV).
A história de Perus é marcada por pressões para aceitar empreendimentos semelhantes, como o aterro sanitário na Chácara Maria Trindade, em Anhanguera, nos anos 2000, e o aterro sanitário Bandeirantes, que operou por 28 anos, recebendo milhões de toneladas de resíduos.
A Visão Oficial: Respostas da Cetesb, SP Regula e Loga
Questionada pela reportagem, a Cetesb informou que todas as colocações feitas na audiência serão incluídas no processo de licenciamento e consideradas na análise técnica. A companhia ressaltou que o projeto da URE em Perus está em fase de análise e segue o rito legal de licenciamento ambiental, baseado no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) apresentados pela empresa. A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), do estado de São Paulo, também foi contatada pela reportagem.
Em nota conjunta, a SP Regula e a Loga defenderam o projeto, afirmando que as UREs, previstas no contrato de concessão de resíduos sólidos do município, são instalações modernas e seguras, amplamente utilizadas em diversos países, inclusive em áreas residenciais, e não devem ser confundidas com os antigos incineradores. Elas alegam que a URE Bandeirantes integrará o Ecoparque Bandeirantes, visando reduzir o volume de resíduos em aterros, gerar energia, criar empregos e ampliar a proteção ambiental. A URE teria capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, recuperando cerca de 64% do material e destinando o restante a aterro sanitário externo.
As empresas reforçaram a importância da participação popular e negaram qualquer tipo de oferta, vantagem ou benefício a lideranças ou participantes, afirmando que a presença do público ocorreu de forma espontânea, respeitando a ordem de chegada e o limite de capacidade do local, em conformidade com as normas de segurança e o rito do licenciamento. A Loga reafirmou seu compromisso com a transparência e o diálogo com a população.
O Avexado News continuará acompanhando os desdobramentos dessa importante questão que envolve saúde pública, meio ambiente e participação cidadã. Para mais informações relevantes, atuais e contextualizadas, continue navegando em nosso portal e mantenha-se bem informado sobre os temas que impactam a sua vida e a sua comunidade.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br