Destaques:
- Um delegado da Polícia Civil do Pará é investigado por comentário misógino em grupo de trabalho, sugerindo ‘pia de louças’ a servidoras.
- O agente, Carlos Guilherme Santos Machado, já era conhecido por ofensas a mulheres e tem um passado marcado por graves condenações na Paraíba.
- Ele foi condenado por estupro e perdeu o cargo de promotor após atirar no cunhado, assumindo a polícia paraense por decisão judicial.
Em um episódio que reacende o debate sobre misoginia e integridade em instituições de segurança pública, um delegado da Polícia Civil do Pará está sob investigação da Corregedoria após fazer um comentário de cunho machista em um grupo de trabalho. A situação, que ganhou repercussão às vésperas do Dia Internacional da Mulher, expôs não apenas a conduta do agente, mas também um histórico de polêmicas e condenações que o acompanham desde sua atuação em outro estado.
O delegado em questão é Carlos Guilherme Santos Machado, lotado na delegacia de Abaetetuba, no nordeste paraense. A controvérsia surgiu quando, em uma conversa virtual sobre um possível café da manhã para celebrar a data, Machado respondeu de forma desrespeitosa. “Café da manhã não garanto, mas se quiser uma pia cheia de louças, a gente providencia. É pra ‘vcs’ se sentirem em casa nesse dia especial”, escreveu ele, dirigindo-se às servidoras.
A mensagem, considerada profundamente ofensiva e misógina pelas destinatárias, gerou indignação imediata. Uma servidora, que preferiu manter o anonimato por medo de retaliações, desabafou sobre o impacto do comentário. “Não fomos tratadas como iguais, fomos tratadas de uma forma, ao meu entender e das minhas colegas, extremamente misógina. Ele mandou que a gente lavasse prato e foi uma coisa que nos ofendeu muito”, declarou. A mesma fonte revelou que o comportamento de Machado de ofender pessoas, especialmente mulheres, já era de conhecimento geral na delegacia, mas o temor impedia denúncias formais.
Diante da gravidade da situação, a conversa foi levada à Corregedoria da Polícia Civil do Pará, que prontamente instaurou um procedimento administrativo para apurar a conduta do delegado. A Polícia Civil informou que Machado será afastado do cargo, embora a data e os detalhes do afastamento não tenham sido divulgados. A defesa do delegado, procurada para comentar o caso, não se manifestou até o momento.
Um passado de polêmicas e condenações
O incidente em Abaetetuba, contudo, é apenas a ponta do iceberg de um histórico conturbado que envolve Carlos Guilherme Santos Machado. Antes de ingressar na Polícia Civil do Pará em 2022, ele atuou como promotor de justiça na Paraíba, onde acumulou uma série de problemas judiciais e administrativos que culminaram em sua exoneração do Ministério Público.
Em 2009, ainda como promotor, Machado foi protagonista de um grave caso de violência sexual. Ele foi condenado a 7 anos e 6 meses de prisão por atentado violento ao pudor, crime que hoje se enquadra no tipo penal de estupro. De acordo com a sentença, a vítima foi atraída sob um pretexto falso e, ao chegar à residência do então promotor, foi submetida à violência. Apesar da condenação, ele obteve o direito de recorrer em liberdade. A Polícia Civil do Pará afirmou não ter sido notificada sobre essa condenação, o que levanta questionamentos sobre os mecanismos de verificação de antecedentes de servidores públicos.
No mesmo ano de 2009, Machado também se envolveu em outro episódio de violência, desta vez familiar. Durante uma discussão na cidade de Cajazeiras, no sertão paraibano, ele atirou no pé do cunhado. Esse incidente, somado ao caso de violência sexual, levou à abertura de processos criminais e administrativos que resultaram na perda do seu cargo de promotor em 2015, por decisão do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Entrada na Polícia Civil do Pará por decisão judicial
Após ser exonerado do Ministério Público da Paraíba, Carlos Guilherme Santos Machado buscou uma nova carreira na segurança pública. Ele ingressou na Polícia Civil do Pará em 2022, mas sua entrada foi marcada por controvérsias. Machado havia sido reprovado na etapa de investigação social do concurso para delegado, um procedimento que visa avaliar a idoneidade moral e conduta pregressa dos candidatos. No entanto, ele conseguiu assumir o cargo por meio de uma decisão judicial, cujo teor não foi detalhado pelo Tribunal de Justiça do Pará (TJPA).
A sequência de eventos – desde as condenações na Paraíba até a entrada na Polícia Civil paraense por via judicial, culminando no recente comentário misógino – expõe falhas nos sistemas de controle e na fiscalização da conduta de agentes públicos. A situação gera preocupação sobre a confiança da população nas instituições de segurança, especialmente em um contexto onde a luta contra a violência de gênero é uma pauta urgente e constante.
O caso de Carlos Guilherme Santos Machado não é apenas um incidente isolado; ele reflete a necessidade de um olhar mais atento sobre a integridade e o preparo de quem ocupa cargos de poder e responsabilidade. A repercussão deste episódio é um lembrete contundente de que a vigilância e a cobrança por condutas éticas devem ser contínuas, garantindo que o ambiente de trabalho seja respeitoso e que a justiça seja aplicada de forma equânime.
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