Polilaminina: a promessa brasileira para lesões medulares e os desafios à frente

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Destaques:

  • Pesquisa da UFRJ com polilaminina avança para testes em humanos.
  • Estudo-piloto mostrou ganhos motores em 5 pacientes com lesão medular.
  • A substância inicia a fase 1 de ensaios clínicos para segurança e eficácia.

A pesquisa com a polilaminina, uma substância desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, tem gerado grande repercussão e esperança. Contudo, para que se possa afirmar com certeza que a substância é capaz de auxiliar pessoas com lesão medular a recuperar seus movimentos, ainda há um caminho rigoroso de testes científicos a ser percorrido. Iniciados há mais de 25 anos, os trabalhos liderados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho dedicaram a maior parte desse tempo à fase pré-clínica, em laboratório, e agora avançam para a etapa crucial de ensaios em humanos.

O que é a polilaminina?

A polilaminina foi descoberta por acaso pela professora Tatiana Sampaio enquanto ela tentava dissociar a laminina, uma proteína presente em diversas partes do corpo humano. Ao invés de se fragmentar, as moléculas de laminina se uniram, formando uma rede: a polilaminina. Essa junção, embora ocorra naturalmente no organismo, nunca havia sido reproduzida em laboratório.

No sistema nervoso, as lamininas atuam como uma base para a movimentação dos axônios, as ‘caudas’ dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos. Em casos de lesão medular, os axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o corpo, o que resulta em paralisia. A proposta da polilaminina é oferecer uma nova base para que os axônios danificados possam crescer e restabelecer essas conexões vitais, permitindo a recuperação de funções motoras e sensoriais.

Resultados promissores do estudo-piloto

Entre 2016 e 2021, os pesquisadores conduziram um estudo-piloto aplicando a substância em oito pessoas que sofreram lesão medular total, decorrente de quedas, acidentes de carro ou ferimentos por arma de fogo. Sete desses pacientes também foram submetidos a cirurgia de descompressão da coluna, um procedimento padrão. Infelizmente, três pacientes faleceram devido à gravidade de seus quadros.

No entanto, os cinco pacientes que sobreviveram, receberam a polilaminina e passaram pela cirurgia de descompressão apresentaram algum ganho motor, ou seja, conseguiram movimentar partes do corpo previamente paralisadas. A melhora foi avaliada pela escala AIS (Asia Impairment Scale), que classifica o comprometimento de A (mais grave) a E (função normal).

Quatro pacientes evoluíram do nível A para o C, indicando retomada incompleta de sensibilidade e movimentos. Um paciente, Bruno Drummond de Freitas, alcançou o nível D, recuperando sensibilidade e funções motoras quase normais. Bruno, que ficou tetraplégico em 2018, relatou ter mexido o dedão do pé semanas após o tratamento, um sinal crucial de que os impulsos cerebrais estavam novamente percorrendo o corpo.

“Foi uma virada de chave. Na hora, pra mim, não tinha valor mexer o dedão do pé e não mexer mais nada. Mas todo mundo comemorou, e, aí, me explicaram que, quando passa um sinal do cérebro até uma extremidade, significa que o sinal está percorrendo o corpo inteiro”

Após intensa fisioterapia e reabilitação na AACD, ele hoje anda normalmente, com dificuldades apenas em alguns movimentos das mãos.

Cautela científica e próximos passos

Apesar dos resultados encorajadores, a experiência do estudo-piloto, embora inspiradora, não é suficiente para comprovar cientificamente a segurança e eficácia da polilaminina. Um artigo pré-print da equipe ressalta que até 15% dos pacientes com lesão medular completa podem apresentar recuperação natural. Além disso, o diagnóstico inicial pela escala AIS pode ser influenciado por fatores como inflamação e inchaço, levando a quadros inicialmente superestimados. A ciência exige rigor, e é por isso que a polilaminina agora entra na fase 1 dos ensaios clínicos tradicionais.

O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explica que esta fase visa principalmente identificar a segurança do composto e a tolerância humana ao tratamento, além de entender sua farmacocinética no organismo.

Avanço para ensaios clínicos em humanos

Diferente do padrão, onde a fase 1 é realizada em pacientes saudáveis, a aplicação da polilaminina, feita por injeção direta na medula, será testada em pessoas com lesão medular aguda. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o estudo, que deve começar este mês e ser concluído até o fim do ano.

Cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos e lesões agudas completas da medula espinhal torácica (entre as vértebras T2 e T10), com indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão, receberão a substância no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. A professora Tatiana Sampaio Coelho detalha que a equipe monitorará eventos adversos, exames neurológicos e toxicidade hepática ou renal, comparando os resultados com a história natural provável para pacientes graves.

A particularidade deste estudo é que, mesmo na fase 1, os pesquisadores esperam observar indícios de eficácia, o que diverge do percurso clássico, onde a eficácia é geralmente medida a partir da fase 2, com um número maior de voluntários e testes de diferentes doses. O caminho é longo e desafiador, mas a esperança de uma solução brasileira inédita para milhões de pessoas com lesão medular permanece acesa, aguardando as confirmações da ciência.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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