O tradicional Paysandu Sport Club, gigante do futebol paraense, enfrenta uma das maiores crises financeiras de sua história. Embora o pedido de recuperação judicial apresentado à Justiça aponte uma dívida oficial de cerca de R$ 16 milhões, fontes internas e especialistas que acompanharam de perto os últimos anos do clube alertam que este número está muito aquém da realidade. A verdadeira dimensão do passivo do Papão, segundo ex-dirigentes e análise de documentos, superaria os R$ 75 milhões – um valor cinco vezes superior ao declarado, escancarando um cenário de gestão complexa e anos de desequilíbrio financeiro.
A recuperação judicial, um instrumento legal para empresas em dificuldades financeiras renegociarem suas dívidas e evitarem a falência, foi apresentada como uma saída para o Paysandu. Contudo, a disparidade entre o valor declarado e o montante real da dívida levanta sérias questões sobre a transparência da situação e os desafios que o clube terá de enfrentar para se reerguer. Para Frederico Carvalho, ex-diretor de futebol do Paysandu, que acompanhou de perto as movimentações do clube, a cifra oficial não reflete a totalidade dos compromissos.
“O clube entrou na Justiça dizendo que deve um valor, mas a dívida real é muito maior. Se você considera passivo trabalhista, fiscal e compromissos empurrados de um ano para o outro, esse número passa fácil dos 70 milhões”, afirma Carvalho, ressaltando que o montante é fruto de mais de uma década de gestões marcadas por práticas financeiras arriscadas e uma aparente falta de governança, independentemente das trocas de nomes na presidência.
A espiral da antecipação de receitas e o risco esportivo
A gênese do agravamento da crise no Paysandu pode ser rastreada até 2023, quando a prática de antecipar receitas futuras para cobrir despesas imediatas se tornou uma constante. Embora comum no universo do futebol brasileiro – onde a volatilidade das finanças e a busca por resultados urgentes muitas vezes levam a atalhos perigosos –, a reincidência dessa estratégia no Papão já era um sinal claro de que o clube operava muito além de sua capacidade financeira sustentável.
O advogado Petterson Sousa, especialista em direito empresarial e ouvido pela reportagem, corrobora essa visão. “Quando a empresa pede antecipação de receita de forma contínua, é porque não tem caixa. Isso indica desequilíbrio financeiro e falhas graves de planejamento”, explica. Ele detalha que tal prática cria uma “bola de neve”, comprometendo orçamentos futuros e forçando ciclos viciosos de novas antecipações para compensar o buraco deixado pelas anteriores, minando a saúde financeira de qualquer organização.
O cenário se deteriorou ainda mais com o risco esportivo. O Paysandu, ao antecipar receitas, apostava na permanência em divisões superiores do Campeonato Brasileiro, o que garantiria maiores cotas de televisão e patrocínios. Contudo, o rebaixamento de divisão – um golpe duro na parte esportiva – transformou o que já era uma situação frágil em um verdadeiro colapso financeiro. “Quando isso não aconteceu, a conta simplesmente explodiu, deixando o clube em uma situação ainda mais delicada e com o futuro comprometido”, completa Petterson.
A teia política e a falta de transparência
Frederico Carvalho aponta que a responsabilidade pela crise não pode ser atribuída a uma única gestão, mas sim a um grupo político que teria se mantido no poder por trás das cortinas ao longo dos últimos 13 anos. “Todos os presidentes desse período têm responsabilidade. Mudavam os nomes, mas o comando era o mesmo, perpetuando práticas que levaram a essa situação”, denuncia Carvalho, sugerindo uma continuidade de métodos de gestão que priorizavam o curto prazo em detrimento da sustentabilidade.
Nesse contexto, ele cita diretamente Maurício Ettinger e Roger Aguilera como figuras centrais da política interna do clube na última década. Aguilera, que assumiu a presidência em 2024 (e renunciou em 2025, conforme informação da imagem), já atuava como vice e ocupava cargos estratégicos em gestões anteriores. Segundo Carvalho, isso implicaria seu pleno conhecimento da situação financeira do clube antes mesmo de sua eleição. “Ele estava lá antes, participou das decisões e sabia do buraco financeiro”, afirma.
Auditorias contestadas e denúncias de irregularidades
A crítica mais contundente levantada pelos bastidores diz respeito à ausência de prestação de contas confiável e à falta de transparência na gestão. Frederico Carvalho relata que, mesmo em períodos de arrecadação recorde – com o Paysandu movimentando mais de R$ 75 milhões em um ano e mais de R$ 85 milhões em outro, entre 2024 e 2025 –, as contas simplesmente não fechavam. “Quando uma auditoria apontava inconsistência, trocava-se de auditor. Não havia transparência nem governança”, critica, evidenciando uma possível prática de mascarar os problemas em vez de resolvê-los.
As denúncias de Carvalho não param por aí. Ele menciona possíveis movimentações financeiras irregulares, incluindo depósitos de recursos do clube em contas e empresas que teriam ligações diretas com dirigentes de gestões passadas. Segundo ele, tais episódios estariam documentados em auditorias internas e registros públicos, aguardando investigação. A situação, em sua visão, não se trata de uma fase esportiva ruim, mas de “má gestão” que comprometeu o futuro do clube.
O desafio da Série C e a polêmica dos R$ 12 milhões
Atualmente, disputando a Série C do Campeonato Brasileiro, o Paysandu vê suas receitas drasticamente reduzidas. O principal patrocínio master, estimado em cerca de R$ 6 milhões, torna-se irrisório diante da real dimensão de um passivo que, segundo os alertas, chega a R$ 75 milhões. A fragilidade financeira impacta diretamente a capacidade de investimento em elenco, estrutura e competitividade, criando um ciclo vicioso que dificulta o retorno às divisões de elite do futebol nacional.
Adicionando uma camada extra de complexidade e polêmica, surge a declaração de Roger Aguilera, ex-presidente, de que o clube lhe deve cerca de R$ 12 milhões. Aguilera afirmou publicamente que abriria mão desse valor por “amor ao Paysandu”. Embora a intenção possa parecer nobre, críticos e torcedores questionam as circunstâncias da dívida e a oportunidade da declaração, em meio a um processo de recuperação judicial que expõe as vulnerabilidades financeiras do clube. Para muitos, a alegação de um débito tão vultoso com um ex-dirigente, no contexto de uma dívida geral astronômica, é um sintoma da precária gestão que o clube enfrentou.
O impacto para a torcida e o caminho à frente
A situação do Paysandu transcende o âmbito administrativo e financeiro, atingindo diretamente sua apaixonada torcida. O Papão, com sua história rica e enorme representatividade cultural no Pará e na região Norte, é um símbolo de paixão e identidade para milhões de bicolores. A cada notícia de crise, a cada revelação de má gestão, a confiança dos torcedores é abalada, e o futuro esportivo da equipe se torna uma preocupação constante. A falta de transparência, em particular, gera frustração e questionamentos sobre o compromisso com a instituição.
A recuperação judicial é um processo longo e complexo, que exige um plano de reestruturação crível, negociação com credores e, acima de tudo, uma gestão rigorosa e transparente. Para o Paysandu, o caminho para a recuperação financeira e esportiva será árduo, demandando não apenas a quitação das dívidas, mas uma profunda reformulação das práticas administrativas. A capacidade de inspirar confiança novamente, tanto no mercado quanto em sua base de fãs, será crucial para que o Papão possa, de fato, se reerguer e voltar a lutar por seus objetivos.
Acompanhar os desdobramentos dessa crise é fundamental para entender os desafios do futebol brasileiro e a resiliência de clubes históricos. O Portal Pai D’Égua segue comprometido em trazer as informações mais relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre o Paysandu e outros temas de interesse do nosso público. Continue conosco para uma cobertura completa e aprofundada, com a credibilidade e a variedade de temas que você já conhece.
Fonte: https://www.oliberal.com