Paciente denuncia racismo e gordofobia em UPA de Santos: ‘Cabelo duro’ e ‘braço gordo’

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Paciente denuncia racismo e gordofobia em UPA de Santos: 'Cabelo duro' e 'braço gordo'

Destaques:

  • Jovem de 22 anos denuncia técnica de enfermagem por comentários racistas e gordofóbicos durante internação em UPA de Santos.
  • Vítima relata ofensas sobre seu cabelo e corpo, levando-a a pedir alta hospitalar antecipada por insegurança.
  • Prefeitura de Santos, Coren-SP e Polícia Civil investigam o caso, que levanta debate sobre discriminação no ambiente de saúde.

Uma denúncia grave de racismo e gordofobia abala o ambiente de saúde em Santos, no litoral de São Paulo. Uma jovem de 22 anos, que estava internada com pneumonia na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Zona Noroeste, relatou ter sido alvo de comentários discriminatórios por parte de uma técnica de enfermagem. O caso, que veio à tona na última semana, expõe a vulnerabilidade de pacientes e a urgência de um debate sobre a humanização e o respeito nos serviços de saúde.

A vítima, cuja identidade não foi divulgada, narrou ao Portal Pai D’Égua os momentos de constrangimento e humilhação. Segundo ela, as ofensas começaram na manhã de quinta-feira (12), após o médico informar a possibilidade de alta hospitalar. A técnica de enfermagem teria aproveitado a saída do profissional para iniciar uma série de comentários depreciativos.

O incidente: ofensas em um momento de vulnerabilidade

“Assim que ele saiu do quarto, em tom debochado, ela disse que era bom eu receber alta para lavar meu ‘cabelo duro’, que estava ‘todo embolado, cacheado e fedido’, e que eu precisava ‘arrumar o cabelo, pentear e tomar banho direito’. Fiquei completamente sem reação naquele momento”, contou a jovem, ainda visivelmente abalada pela situação. A fala da profissional de saúde não apenas desrespeitou a paciente, mas também a atacou em sua identidade racial e estética, utilizando termos pejorativos que remetem a preconceitos históricos.

A sequência de ofensas não parou por aí. Ao tentar aferir a pressão da paciente, a técnica de enfermagem teria encontrado dificuldades com o aparelho. “O aparelho deu erro e ela disse que meu braço era muito gordo e que ‘precisaria de um aparelho maior porque eu comia muito doce’. Em seguida, começou a procurar doces dentro da minha mochila”, lembrou a vítima. A situação se agravou quando a jovem ofereceu um doce à profissional, que teria respondido que não queria porque tomava Mounjaro — medicamento usado para diabetes e obesidade, mas popularizado para emagrecimento —, e, rindo, passou a mão pelo próprio corpo, sugerindo que a paciente deveria parar de comer.

Repercussão e a busca por justiça

A paciente imediatamente relatou o ocorrido ao médico, que acionou a coordenação do hospital. A enfermeira chefe, ao tomar conhecimento, informou à jovem que a técnica de enfermagem havia reconhecido os comentários, mas os justificou como “apenas uma brincadeira”, alegando ter “um marido negro e acima do peso”. Uma justificativa que, para a vítima, apenas evidencia a falta de compreensão sobre a gravidade do racismo e da gordofobia.

“Uma situação grave de racismo e tratamento desumano que sofri”, lamentou a paciente, que percebeu uma mudança no tratamento por parte das outras enfermeiras, passando a se sentir hostilizada. Diante do ambiente de insegurança e da falta de direito a acompanhante, a jovem pediu alta hospitalar, mesmo sem estar totalmente recuperada. “Ninguém deveria passar por racismo ou ser tratado dessa forma dentro de um ambiente de saúde, especialmente estando vulnerável e internado”, desabafou.

Investigações em curso e o compromisso ético

A denúncia foi formalizada em diversas instâncias. A jovem registrou a ocorrência na ouvidoria municipal, no Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) e na Polícia Civil. A Prefeitura de Santos, por meio de nota, informou que a ocorrência será apurada junto à organização social responsável pela gestão da UPA Zona Noroeste, enfatizando que “não compactua com quaisquer ações discriminatórias, primando pelo atendimento humanizado em todas as suas unidades próprias e conveniadas”.

O Coren-SP, órgão fiscalizador da profissão, também agiu prontamente, abrindo uma sindicância para investigar o caso. “A apuração seguirá sob sigilo processual e, após a averiguação dos fatos, se forem constatados indícios de infração ética, será instaurado um processo ético-profissional”, afirmou o conselho, reiterando seu compromisso com o exercício da enfermagem livre de qualquer tipo de discriminação. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou o registro do caso como injúria na Delegacia Eletrônica, encaminhado ao 5º DP de Santos, e orientou a vítima sobre o prazo para representação criminal.

Racismo e gordofobia no ambiente de saúde: um alerta

Este incidente em Santos não é um caso isolado e acende um alerta sobre a persistência do racismo e da gordofobia em ambientes que deveriam ser de acolhimento e cuidado. Pacientes, em seu estado de maior fragilidade, são particularmente vulneráveis a comentários e atitudes discriminatórias, que podem ter impactos profundos na sua saúde mental e na confiança no sistema de saúde. A discriminação, seja ela racial, de gênero, de peso ou qualquer outra, é uma violação dos direitos humanos e éticos, especialmente grave quando praticada por profissionais que juraram cuidar da vida.

O episódio reforça a necessidade de treinamento contínuo e sensibilização para todos os profissionais de saúde, visando a promoção de um atendimento verdadeiramente humanizado e livre de preconceitos. É fundamental que as instituições de saúde não apenas condenem tais atos, mas implementem políticas eficazes de combate à discriminação e ofereçam canais seguros para denúncias, garantindo que a dignidade e o respeito sejam pilares inegociáveis do cuidado.

O Portal Pai D’Égua continuará acompanhando os desdobramentos deste caso, reforçando nosso compromisso com a informação relevante e contextualizada, que joga luz sobre questões sociais cruciais. Mantenha-se informado sobre este e outros temas que impactam a sua vida e a nossa sociedade, explorando a variedade de conteúdos que preparamos para você.

Fonte: g1.globo.com

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