O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concluiu sua décima participação em uma cúpula do G7, o influente fórum que reúne as sete maiores economias industrializadas do mundo. O Brasil, como convidado ao lado de outras nações em desenvolvimento, marcou presença no evento realizado em Évian-les-Bains, na França, às margens do Lago de Genebra. A passagem de Lula pela cúpula foi marcada por uma intensa agenda de reuniões bilaterais e, notavelmente, por um embate público com o ex-presidente americano Donald Trump, evidenciando as complexidades e as ambições da diplomacia brasileira no cenário internacional.
Durante os três dias de cúpula, Lula teve encontros privados com líderes do Japão, Egito, Ucrânia, França e União Europeia. Além disso, reuniu-se com o presidente da Confederação Suíça, Guy Parmelin, e com o secretário-geral da Interpol, o brasileiro Valdecy Urquiza. Nos corredores e nas sessões ampliadas, o presidente brasileiro interagiu com todos os participantes, incluindo Donald Trump, cuja presença gerava grande expectativa devido a tensões recentes nas relações bilaterais, como a possibilidade de novas tarifas e a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas.
Lula G7: o embate com Donald Trump
A interação entre Lula e Trump, inicialmente cordial com um “bom trabalho” do americano em um encontro nos corredores, rapidamente escalou para uma troca de farpas públicas após o término do fórum. Em coletivas de imprensa separadas, Trump declarou que o Brasil se tornou “perigoso do ponto de vista político” e fez uma menção confusa à condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que ele erroneamente associou à prisão de um candidato eleitoral. Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo, um crime relacionado à tentativa de intimidar ou interferir em investigações judiciais, especificamente em um caso que envolvia seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lula não hesitou em rebater as declarações de Trump. Em sua coletiva de imprensa em Genebra, o presidente brasileiro enfatizou a importância do respeito à soberania nacional. “Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania”, afirmou Lula. Ele deixou claro que, embora Trump tenha o direito de ter suas preferências políticas, não deve interferir nos assuntos internos do Brasil. “Não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil”, sentenciou o petista, reafirmando a postura de defesa da autonomia do país.
Apesar do embate, o Palácio do Planalto indicou que as negociações com Washington sobre a possível taxação extra de 25% sobre parte das importações brasileiras continuam em andamento por canais diplomáticos e técnicos. Lula ressaltou que não houve pedido de reunião bilateral com Trump, pois os assuntos estão sendo tratados por equipes especializadas, mas não descartou um contato direto caso as negociações não avancem.
A busca pela paz na Ucrânia e o diálogo com a UE
Outro ponto crucial da agenda de Lula foi o encontro a portas fechadas com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Lula descreveu a reunião como a melhor que já teve com o líder ucraniano, percebendo-o “com disposição de encontrar solução” para o conflito em curso. O presidente brasileiro reiterou a Zelensky a importância de os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU agirem de forma mais efetiva para pôr fim à guerra, comprometendo-se a contatar os cinco membros (China, Rússia, EUA, França e Reino Unido) para reforçar essa necessidade. Zelensky, por sua vez, classificou a reunião como “boa” e concordou em manter “novos contatos” sobre o tema.
A participação brasileira no G7 também incluiu uma reunião bilateral com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu. O principal tema foi a decisão da União Europeia de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil, a partir de 3 de setembro, sob a alegação de não conformidade com exigências sanitárias europeias. Embora o veto não tenha sido suspenso, foi acordado um acompanhamento mais próximo e político das negociações sobre padrões fitossanitários. A pauta incluiu ainda as tratativas sobre a exportação de produtos siderúrgicos, diante do acordo político do bloco europeu para elevar as tarifas sobre importações de aço.
Brasil: um “estranho no ninho” no G7?
A postura diplomática do Brasil no G7 evidenciou uma distância em relação às potências do grupo. Das oito declarações que poderiam ser endossadas pelos países convidados, o Brasil concordou apenas com três: combate ao câncer, garantia de espaço digital seguro para crianças e adolescentes, e luta contra o tráfico de drogas. Declarações sobre desequilíbrios macroeconômicos, ebola, minerais críticos e parcerias internacionais para o desenvolvimento não receberam o aval brasileiro.
Fontes diplomáticas brasileiras apontaram que essa seletividade reflete a dissonância de Brasília em muitos tópicos com as potências do G7. Um exemplo citado foi o texto sobre mineração, classificado como de “visão extrativista” e “anti-China”. O governo brasileiro reconheceu que grande parte do que foi discutido e assinado na cúpula de 2026 foi moldado para acomodar os interesses dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. Lula criticou a dinâmica do G7, afirmando que “está ficando quase que um samba de uma nota só. Quando os convidados chegam à reunião, o G7 já aprovou seus documentos”.
O presidente brasileiro também defendeu a parceria dos países do Sul Global com a China, argumentando que Pequim tem investido significativamente mais em desenvolvimento, e com taxas mais justas, do que as nações ocidentais. “Não podem se queixar que a China está ocupando espaço se o espaço estava vazio”, provocou Lula, reforçando a visão de um Brasil que busca diversificar suas alianças e defender uma ordem multipolar.
A participação de Lula no G7, portanto, não foi apenas uma formalidade, mas um palco para a reafirmação da política externa brasileira, que busca equilibrar o diálogo com as grandes potências com a defesa da soberania nacional e a promoção de uma visão mais equitativa das relações internacionais. Para continuar acompanhando os desdobramentos da política externa brasileira e outras notícias relevantes, fique ligado no Portal Pai D’Égua, seu portal multitemático com informação atualizada e contextualizada.
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