Destaques:
- Laudo da Polícia Federal aponta genro do prefeito de Manaus, Gabriel Alexandre da Silva Lima, como intermediador em suposta compra de votos nas eleições de 2024.
- Perícia em celulares apreendidos revela mensagens e áudios com pedidos de R$ 80 mil e articulação de apoio político-religioso.
- A investigação, que apura corrupção eleitoral na capital amazonense, levanta questionamentos sobre a demora na análise de provas cruciais.
Um laudo recente da Polícia Federal (PF) trouxe à tona novas informações sobre uma investigação de suposta compra de votos em Manaus, durante as eleições municipais de 2024. O documento aponta que Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do atual prefeito David Almeida, teria atuado como intermediador em negociações com lideranças religiosas para a mobilização de apoio político.
A revelação surge de uma perícia minuciosa em celulares apreendidos pela PF, em 2024, no âmbito de um inquérito que apura corrupção eleitoral na capital amazonense. Os aparelhos pertenciam a líderes ligados à Igreja Pentecostal Unida do Brasil (IPUB), e a análise de seu conteúdo – mensagens, áudios e arquivos – detalha uma intrincada rede de contatos e supostas tratativas financeiras em troca de votos.
Detalhes da investigação e o papel de Gabriel Alexandre
A perícia foi realizada em quatro celulares. Em um deles, atribuído ao pastor Flaviano Negreiros, os investigadores identificaram conversas em um grupo de WhatsApp e mensagens diretas com um contato salvo como “Gabriel Davi Almeida”. A PF confirmou que se trata de Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito.
As mensagens e áudios analisados são contundentes. Em um dos trechos, um pastor solicita diretamente a Gabriel o envio de R$ 80 mil. O religioso explica que o valor seria dividido entre as lideranças para “animar” a todos, sugerindo que o dinheiro seria um incentivo para o engajamento político. A mensagem, segundo a transcrição do laudo, diz: “Se o senhor pudesse enviar todo aquele valor, os oitenta mil, para nós já dividir com todo mundo, para todo mundo se animar.”
Para os investigadores, essa comunicação indica claramente que o dinheiro seria distribuído entre pastores e obreiros com o objetivo de estimular apoio político. O valor de R$ 80 mil teria relação com o segundo turno das eleições de 2024, embora as mensagens também sugiram um pagamento anterior, no primeiro turno, cujo montante não foi especificado.
Há ainda registros de cobranças por parte dos líderes religiosos a Gabriel, referentes ao “restante do valor” prometido. Em um áudio, um pastor afirma: “Tem que ligar para o Gabriel para ver essa situação. Quem prometeu foi o Gabriel dar o restante do valor.” Essa insistência reforça a hipótese de uma negociação financeira em troca de apoio eleitoral.
Mobilização eleitoral e a proximidade com a igreja
Além das tratativas financeiras, Gabriel Alexandre também teria solicitado apoio direto na divulgação da campanha. Em um áudio recuperado, um dos investigados pede aos pastores que divulguem o “setenta” – o número eleitoral do candidato apoiado – em suas redes sociais, como WhatsApp, Facebook e Instagram. A PF interpreta essa ação como uma tentativa de mobilizar as lideranças religiosas para ampliar a propaganda política entre os fiéis, utilizando a influência da igreja.
A perícia também revelou uma frequência de contatos entre Gabriel e líderes da IPUB, incluindo o pastor Flaviano Paes Negreiros. As conversas, que se iniciaram em 25 de agosto de 2024, antes do primeiro turno, incluem mensagens, áudios e até fotografias dos dois juntos. Um dos diálogos analisados mostra que Flaviano convocou líderes religiosos para uma reunião com a presença de Gabriel em uma cafeteria. Segundo a PF, nesse encontro teriam sido discutidos o apoio eleitoral da igreja, o número de membros e o possível valor a ser pago pela influência nos votos, indicando uma articulação direta entre a campanha e as lideranças religiosas.
O contexto da investigação e a demora na perícia
A investigação da Polícia Federal teve início em 2024, após uma denúncia de compra de votos envolvendo o prefeito David Almeida. A operação policial que resultou na apreensão dos celulares ocorreu em 26 de outubro de 2024, véspera do segundo turno das eleições municipais. A denúncia original apontava para uma convocação de pastores da IPUB para um minicentro de convenções da igreja, local conhecido como reduto político de Almeida.
No local, foram encontrados envelopes com dinheiro, totalizando R$ 21.650 em espécie, divididos em notas de R$ 200. Pastores presentes afirmaram que o dinheiro era parte de um montante de R$ 38 mil recebido na noite anterior de uma pessoa ligada à campanha de David Almeida, identificada no processo apenas como “Eliezer”. Dois dirigentes da igreja foram presos em flagrante, mas liberados após pagamento de fiança de R$ 15 mil cada, e respondem ao processo em liberdade.
Um ponto que chama a atenção é a demora na perícia dos celulares. Os aparelhos foram apreendidos há quase um ano e meio, e a autorização judicial para acesso ao conteúdo foi dada em 25 de novembro de 2024. Especialistas consultados pela Rede Amazônica consideram a lentidão incomum, visto que a legislação eleitoral estabelece prazos para a conclusão de processos relacionados ao pleito. O advogado Alexandre Nogueira ressaltou que investigações não podem se estender por tempo indeterminado, e que a jurisprudência tem consolidado o entendimento de que procedimentos investigatórios devem ter um prazo razoável. “Entendo que, muito provavelmente, em pouco tempo o juiz do caso deverá se manifestar para que seja especificado se ainda há alguma prova a produzir ou diligência a realizar, para que o inquérito seja encerrado e o Ministério Público possa decidir se oferece denúncia ou não”, afirmou Nogueira.
A Secretaria Municipal de Comunicação de Manaus foi questionada sobre as informações do inquérito, mas não se manifestou até a última atualização desta reportagem. A defesa de Gabriel Alexandre da Silva Lima e do pastor Flaviano Negreiros não foi localizada para comentar as acusações.
Relevância e desdobramentos
Este caso sublinha a constante vigilância necessária sobre a integridade do processo eleitoral, especialmente em um cenário onde a influência religiosa e o poder político podem se entrelaçar de forma questionável. A suposta compra de votos, se comprovada, representa uma grave violação da democracia, minando a livre escolha do eleitor e a lisura da disputa. A demora na análise das provas, por sua vez, levanta preocupações sobre a eficácia da Justiça Eleitoral e a celeridade dos processos investigativos, que são cruciais para garantir a responsabilização e a confiança pública nas instituições.
O Portal Pai D’Égua continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta investigação, trazendo as informações mais relevantes e contextualizadas para você. Mantenha-se informado sobre este e outros temas que impactam a realidade de Manaus e do Brasil, com a credibilidade e a profundidade que você já conhece.
Fonte: g1.globo.com