O Pará encerrou o ano de 2025 com um feito notável no mercado de trabalho: a menor taxa anual de desocupação desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estado alcançou um índice de 6,8%, posicionando-se entre as 20 unidades da federação com os menores níveis de desemprego já apurados. Contudo, por trás da aparente bonança estatística, persiste um desafio estrutural preocupante: a informalidade, que ainda atinge mais da metade da população ocupada, revelando fragilidades que demandam um olhar aprofundado.
O Cenário Contraditório do Mercado Paraense
A queda do desemprego no Pará é um dado que reflete um certo dinamismo econômico observado no período. A taxa paraense, de 6,8%, ficou próxima da média nacional, que foi de 5,6% em 2025, indicando uma convergência em relação aos indicadores do país. Enquanto estados como Piauí (9,3%), Bahia (8,7%) e Pernambuco (8,7%) registraram as maiores taxas de desocupação, o Pará se alinhou a um grupo com melhor desempenho, embora ainda distante dos índices de Mato Grosso (2,2%) e Santa Catarina (2,3%). Essa melhora se consolidou após um 2024 em que o estado já mostrava sinais de recuperação, com taxas médias anuais entre 7,8% e 8,0%, sinalizando uma trajetória de aprimoramento que culminou no recorde de 2025.
Para o analista da pesquisa, William Kratochwill, a mínima histórica no Pará, assim como em outras regiões, é um indicativo do recente dinamismo do mercado de trabalho e do avanço do rendimento real. No entanto, ele ressalta que esse quadro positivo ainda mascara fragilidades estruturais, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Essa leitura é crucial para entender que os números, por si só, não contam a história completa da qualidade das ocupações e da sustentabilidade desse crescimento.
A Persistência da Informalidade: Um Desafio Estrutural
Se a taxa de desocupação traz alívio, a informalidade, por outro lado, acende um sinal de alerta. Em 2025, o Pará manteve uma das maiores taxas de informalidade do Brasil, com impressionantes 58,5% da população ocupada trabalhando sem carteira assinada, sem registro de CNPJ para autônomos ou sem a devida proteção previdenciária. Esse percentual coloca o estado como o segundo no ranking nacional, superado apenas pelo Maranhão (58,7%), e muito acima da média brasileira, que ficou em 38,1%. Essa disparidade regional é um reflexo das complexidades e das diferenças no desenvolvimento econômico e social do país.
Na prática, uma taxa de informalidade tão elevada significa que mais da metade dos trabalhadores paraenses está à margem dos direitos trabalhistas formais. Isso se traduz em renda instável, ausência de férias remuneradas, 13º salário, seguro-desemprego e, fundamentalmente, menor acesso à previdência social, comprometendo a segurança financeira no futuro. A concentração de empregados do setor privado sem carteira assinada e de trabalhadores por conta própria sem CNPJ nas regiões Norte e Nordeste evidencia um padrão de precarização que afeta diretamente a qualidade de vida e a capacidade de planejamento das famílias.
Trajetória e Motores da Recuperação
A virada para 2025 no mercado de trabalho paraense não foi um evento isolado, mas o resultado de uma série de movimentos econômicos. Em 2024, apesar de uma taxa de informalidade já elevada (58,1%), o estado começou a colher os frutos da consolidação de obras de infraestrutura e da expansão do setor de serviços. Esses investimentos, muitas vezes, geram empregos em áreas como construção civil, logística e comércio, que absorvem mão de obra rapidamente, contribuindo para a redução do desemprego.
Um dos grandes impulsionadores para a queda da desocupação em 2025 foi a preparação para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em Belém em 2025. A perspectiva do evento global mobilizou investimentos em infraestrutura, hotelaria, turismo e serviços diversos, criando uma demanda temporária e substancial por trabalhadores. Essa onda de otimismo e atividade econômica contribuiu diretamente para o menor nível de desocupação da série histórica, ainda que muitos dos postos de trabalho gerados possam ser de natureza provisória, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade do emprego no pós-COP30.
Desigualdades e Desafios Regionais Persistentes
Embora o Pará tenha alcançado um recorde positivo, a região Norte, como um todo, apresentou estabilidade na taxa de desocupação no quarto trimestre de 2025, contrastando com as quedas observadas no Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Esse dado sugere que a recuperação do mercado de trabalho na região amazônica ocorre em ritmo mais lento e de forma menos homogênea que no restante do país, reforçando a ideia de que as fragilidades estruturais mencionadas pelo IBGE são mais evidentes em contextos regionais específicos.
A desigualdade também se manifesta no rendimento. O rendimento médio real habitual no Brasil atingiu R$ 3.560 em 2025, com o Distrito Federal liderando (R$ 6.320). Apesar de um crescimento do rendimento na região Norte no quarto trimestre (R$ 2.846), os valores permanecem significativamente distantes dos estados com maiores salários médios, refletindo uma persistente disparidade de poder aquisitivo. Além disso, as taxas de desocupação revelam que a recuperação não é igualitária: homens (4,2%) têm menor desemprego que mulheres (6,2%), e a taxa entre brancos (4,0%) é inferior à de pretos (6,1%) e pardos (5,9%), evidenciando a necessidade de políticas inclusivas para garantir que o crescimento alcance todos os segmentos da sociedade.
Para Além dos Números: O Impacto Social
A dicotomia entre a queda do desemprego e a alta informalidade no Pará expõe uma realidade complexa para o trabalhador. Por um lado, há mais pessoas ocupadas; por outro, uma parcela significativa delas está desprotegida, vulnerável a crises econômicas e sem acesso pleno aos benefícios sociais. Essa realidade impacta diretamente a capacidade de consumo, o acesso à saúde e educação, e a mobilidade social das famílias, perpetuando ciclos de desigualdade. Compreender essa dinâmica é fundamental para o desenvolvimento de estratégias que não apenas gerem empregos, mas que garantam dignidade e segurança aos cidadãos.
Diante desse panorama, o debate sobre a formalização do mercado de trabalho, o investimento em qualificação profissional e a atração de empregos de maior valor agregado se torna ainda mais relevante para o futuro do Pará. O desafio é transformar o dinamismo atual em crescimento sustentável e inclusivo, que ofereça não só vagas, mas também oportunidades de ascensão social e segurança para todos os paraenses. É um caminho que exige a colaboração de diversos setores e uma visão de longo prazo para superar as fragilidades estruturais que ainda marcam a economia regional.
Acompanhar de perto a evolução desses indicadores é crucial para entender os rumos da nossa economia e o impacto na vida das pessoas. Para se manter sempre informado sobre os dados mais recentes do mercado de trabalho, análises aprofundadas e notícias que realmente importam para o Pará e para o Brasil, continue conectado ao Portal Pai D’Égua. Nosso compromisso é com a informação relevante, atual e contextualizada, abrangendo uma variedade de temas para que você tenha sempre o conteúdo mais completo e confiável à sua disposição.
Fonte: https://www.oliberal.com