Destaques:
- Cuba enfrenta uma severa crise energética, completando três meses sem receber cargas de combustível.
- O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, detalhou o impacto do bloqueio dos EUA, que causa blecautes de até 30 horas e afeta serviços essenciais.
- Apesar de medidas internas e um diálogo inicial com Washington, a ilha ainda depende crucialmente do petróleo importado.
Havana, Cuba – A ilha de Cuba mergulha em uma das mais graves crises energéticas de sua história recente, completando três meses sem receber qualquer carga de combustível. A situação, que já era delicada, foi drasticamente agravada pelo endurecimento do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que ameaça sancionar qualquer nação que ouse fornecer petróleo ao país caribenho.
O cenário é de profunda preocupação, com o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, descrevendo o impacto “imensurável” na vida da população. Em coletiva de imprensa realizada em Havana nesta sexta-feira (13), Díaz-Canel revelou que alguns municípios enfrentam blecautes que se estendem por até 30 horas, transformando o cotidiano dos cubanos em um desafio constante.
Bloqueio americano intensifica a crise em Cuba
“Já se passaram mais de três meses desde que um navio-tanque entrou em nosso país e estamos trabalhando em condições muito adversas que têm um impacto imensurável na vida de toda a nossa população”, afirmou o presidente, sublinhando a gravidade da situação. Cerca de 80% da energia elétrica de Cuba é gerada por termelétricas, que dependem diretamente do combustível importado.
O cerco energético se apertou significativamente a partir do final de janeiro deste ano, quando o então presidente dos EUA, Donald Trump, editou uma nova Ordem Executiva. Esta medida classificou Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington, citando o alinhamento de Havana com países como Rússia, China e Irã. A decisão não apenas intensificou as sanções comerciais, mas também previu a imposição de tarifas e restrições a qualquer país que forneça ou venda petróleo à ilha.
A situação foi ainda mais exacerbada pelo bloqueio naval dos EUA à Venezuela, tradicional fornecedora de petróleo para Cuba, a partir do final de 2025. Este movimento estratégico cortou uma das principais artérias de abastecimento da ilha, aprofundando a dependência cubana e expondo sua vulnerabilidade no mercado global.
Impacto no cotidiano e na saúde pública
A população cubana, especialmente em Havana, descreve o momento como o “pior já vivido”. Os apagões frequentes e prolongados são apenas a ponta do iceberg. A elevação dos preços de produtos básicos, a drástica redução do transporte público e a diminuição da oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado são problemas que se agravaram nas últimas semanas. Nas províncias do interior, a situação é ainda mais crítica, com blecautes que podem durar quase o dia todo.
O setor de saúde é um dos mais afetados. Díaz-Canel lamentou que “dezenas de milhares de pessoas no país aguardam cirurgias que não podem ser realizadas devido à falta de energia elétrica. Entre as dezenas de milhares, um número significativo são crianças que aguardam cirurgia”. A escassez de combustível compromete não só a iluminação de hospitais, mas também o funcionamento de equipamentos essenciais e o transporte de pacientes e suprimentos médicos.
Resposta cubana e o frágil caminho do diálogo
Diante do cenário adverso, o governo cubano tem implementado medidas para mitigar os efeitos da crise. Entre elas, destacam-se o aumento da produção interna de petróleo, a expansão das usinas solares e o incentivo ao uso de carros elétricos. “Durante o dia, geramos eletricidade utilizando petróleo bruto nacional e nossas usinas termoelétricas. Além disso, a contribuição de fontes de energia renováveis é considerável e, como já mencionamos, varia entre 49% e 51% [do total de energia do país durante o dia]”, explicou Díaz-Canel. Embora essas ações tenham amenizado a frequência dos apagões, o presidente reconhece que Cuba ainda precisa do petróleo importado para sustentar serviços cruciais como saúde, educação, transporte e a própria rede de distribuição de energia.
Em um sinal de abertura, Havana iniciou, recentemente, conversações com representantes do governo dos EUA. Essas trocas, facilitadas por atores internacionais, buscam “criar espaços de entendimento e cooperação” e encontrar uma possível solução para as diferenças bilaterais. O chefe de Estado cubano reiterou a vontade de Havana de continuar o diálogo, sob os princípios de igualdade, respeito aos sistemas políticos de ambos os países, soberania e autodeterminação. Contudo, a retórica de Donald Trump, que tem ameaçado o governo cubano com uma “mudança em breve” após a guerra no Irã, adiciona uma camada de incerteza a essas negociações.
O embargo dos EUA contra Cuba, que já dura 66 anos desde as primeiras medidas adotadas após a Revolução Cubana de 1959, representa um dos mais longos e complexos conflitos geopolíticos da história moderna. O atual endurecimento do bloqueio não é apenas uma pressão econômica, mas uma tentativa de desestabilizar o governo liderado pelo Partido Comunista, que há décadas desafia a hegemonia política de Washington na América Latina.
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