O Complexo da Maré, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi palco de 160 mortes decorrentes de operações policiais ao longo de uma década. Entre os anos de 2016 e 2025, foram realizadas 231 ações policiais na região, resultando em 1.538 episódios de violência e violações de direitos contra os moradores das 15 favelas que compõem a comunidade.
De acordo com dados da 9ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré 2025, divulgado pela ONG Redes da Maré, o ano com o maior número de vítimas fatais foi 2019, totalizando 30 mortes. Já em relação ao número de operações, o recorde foi atingido em 2024, com 42 ações policiais.
Além das estatísticas de mortes e operações, o boletim aponta para os impactos da violência armada nos direitos básicos dos moradores, como educação e saúde, destacando a situação de instabilidade e a falta de preservação da cena do crime durante as operações policiais.
Impactos na comunidade e críticas à atuação policial
A coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, Tainá Alvarenga, ressaltou a preocupação com o grande número de operações policiais sem o devido registro de perícias no local. Segundo ela, a falta de preservação da cena do crime e a ausência de instituições responsáveis pela perícia contribuem para a insegurança e instabilidade nos territórios afetados.
O boletim também aponta interferências provocadas por grupos armados na região, resultando em 11 mortes em 2025, além de diversos casos de violência física, psicológica, verbal, ameaças, deslocamentos forçados e invasões de escolas. A comunidade ainda enfrentou 141 registros de tiros, evidenciando o impacto direto da violência armada no cotidiano dos moradores.
Posicionamento das autoridades e falta de respostas
Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que desconhece a metodologia da pesquisa e a possibilidade de rastreabilidade dos dados apresentados no boletim. A instituição ressaltou que atua com critérios técnicos, inteligência e planejamento operacional, com foco no cumprimento de mandados judiciais e na repressão ao crime organizado, visando preservar vidas.
Por outro lado, a Polícia Militar ainda não se pronunciou sobre os impactos das operações na comunidade, deixando questões em aberto sobre as ações realizadas e suas consequências para os moradores da Maré.
Diante desse cenário de violência e insegurança, a comunidade da Maré enfrenta desafios constantes em busca de garantias de direitos e proteção. A complexidade das relações entre as autoridades policiais, os grupos armados e os moradores evidencia a necessidade de um diálogo amplo e efetivo para promover mudanças significativas e a construção de um ambiente mais seguro e pacífico.
O Portal Pai D’Égua continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa situação, reforçando o compromisso com a informação de qualidade e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária.