Destaques:
- Brasil e África do Sul priorizam autonomia na produção militar para autodefesa.
- Lula defende soberania sobre minerais críticos e valorização da cadeia produtiva.
- Líderes reforçam o papel do Sul Global na segurança e economia mundial.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (9 de março de 2026) ao seu homólogo sul-africano, Cyril Ramaphosa, que Brasil e África do Sul devem concentrar esforços na busca por autonomia e fortalecimento mútuo. A proposta central é impulsionar a produção de artigos militares para autodefesa, visando a soberania e a redução da dependência externa.
Durante o encontro no Palácio do Planalto, em Brasília, Lula enfatizou a necessidade de preparação para a defesa. “Se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente. O Brasil tem necessidade similar à da África do Sul. Portanto, vamos juntar o nosso potencial e ver o que podemos construir juntos”, declarou o presidente brasileiro. A visão é clara: não depender dos “Senhores das Armas”, mas sim desenvolver capacidades próprias.
Cooperação estratégica para a autodefesa
A defesa da autonomia na produção militar é um pilar da estratégia de cooperação Sul-Sul. Lula argumentou que a parceria entre Brasil e África do Sul pode criar um mercado relevante para a indústria de defesa, fortalecendo ambos os países. “Não precisamos ficar comprando dos ‘Senhores das Armas’. Nós poderemos produzir. Ninguém vai ajudar a gente, a não ser nós mesmos”, pontuou o presidente, sublinhando a importância da autossuficiência.
A declaração ocorreu após a assinatura de acordos bilaterais nas áreas de turismo, comércio exterior e indústria, evidenciando uma agenda ampla de colaboração. A visita de Ramaphosa ao Brasil estendeu-se até o dia seguinte, 10 de março, consolidando o diálogo entre as duas nações.
América do Sul como zona de paz e tecnologia civil
Lula reiterou o compromisso da América do Sul com a paz, contrastando com cenários de conflito em outras regiões do mundo. “Aqui, na América do Sul, nós nos colocamos como uma região de paz. Aqui, ninguém tem bomba nuclear, bomba atômica. Nossos drones são para agricultura, para a ciência e tecnologia e não para a guerra”, afirmou. Essa postura reforça a ideia de que o desenvolvimento tecnológico deve servir a propósitos civis e pacíficos, mesmo ao buscar autonomia em áreas sensíveis como a defesa.
Preocupação com conflitos globais e impacto econômico
O presidente brasileiro expressou “profunda preocupação” com a escalada do conflito no Oriente Médio, que, segundo ele, representa uma grave ameaça à paz e à segurança internacional. Lula defendeu o diálogo e a diplomacia como o único caminho viável para uma solução duradoura.
Ele alertou para os impactos econômicos diretos, como a alta do preço do petróleo, que já vinha subindo e deve encarecer ainda mais. Além dos efeitos econômicos, Lula destacou o custo humanitário do conflito, iniciado em 28 de fevereiro após ataques coordenados que resultaram na morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, e de centenas de civis em Teerã. “Esses conflitos produzem efeitos deletérios sobre as cadeias de energia, de insumos e de alimentos. São mais vulneráveis, sobretudo, as mulheres e as crianças que sofrem os impactos mais severos dessas crises”, declarou.
Soberania sobre minerais críticos e valorização da cadeia produtiva
Outro ponto crucial da discussão foi o potencial do Brasil na exploração de minerais críticos, essenciais para a transição energética e digital global. Lula defendeu um novo modelo de exploração dos recursos naturais, que priorize a agregação de valor e beneficie a população.
“Já está avisado ao mundo que o Brasil não vai fazer das terras raras e dos minerais críticos aquilo que foi feito por minério de ferro. A gente vendeu o minério e comprou produto acabado pagando 100 vezes mais caro”, enfatizou o presidente. A proposta é fortalecer as cadeias produtivas da mineração em ambos os países, a partir do conhecimento do potencial mineral de cada nação.
Lula questionou a lógica histórica de exportação de matérias-primas sem beneficiamento: “Chega! Já levaram toda a nossa prata, todo o nosso ouro, todo o nosso diamante, todo o nosso minério de ferro. O que mais querer levar? Quando a gente vai aprender que Deus colocou toda essa riqueza para nós e nós ficamos dando para os outros?”. A mensagem é clara: a exploração de minerais críticos deve se traduzir em melhoria das condições de vida da população, e não apenas em lucro para terceiros.
Fortalecimento da democracia e governança digital
O presidente confirmou sua participação na quarta reunião “Em defesa da Democracia”, em 18 de abril, em Barcelona (ES), a convite do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. O objetivo é aproximar os países em temas como regulação do ambiente digital, inteligência artificial e valorização de fontes de informação de qualidade, tanto em políticas domésticas quanto na articulação multilateral.
Por fim, Lula reforçou a convicção compartilhada por Brasil e África do Sul de que o Sul Global deve ter uma voz ativa e decisiva nas grandes decisões internacionais, consolidando uma agenda de soberania, desenvolvimento e paz.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br