Avenida Liberdade: nova via expressa no Pará enfrenta desafios após inauguração

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Foto: Edivaldo Sodré / Agência Pará
Foto: Edivaldo Sodré / Agência Pará

A Avenida Liberdade, uma das mais aguardadas obras de infraestrutura na Região Metropolitana de Belém, foi inaugurada recentemente com a promessa de transformar a mobilidade urbana. No entanto, a celebração foi rapidamente ofuscada por problemas iniciais, incluindo trechos da via às escuras devido ao furto de fiação elétrica. A situação, segundo a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seinfra), foi prontamente resolvida, mas acendeu um alerta sobre a segurança e a manutenção da nova via.

Com 14 quilômetros de extensão, a pista expressa conecta a Alça Viária à Avenida Perimetral, integrando três municípios da Grande Belém e projetada para beneficiar mais de dois milhões de pessoas. Contudo, os desafios vão além da iluminação, abrangendo questões socioambientais e repercussões políticas que colocam a obra no centro de um intenso debate.

A Promessa da Mobilidade na Amazônia

A construção da Avenida Liberdade representou um investimento de R$ 410 milhões e foi concebida para ser a primeira via expressa sem interrupções da Amazônia. Sua principal meta é revolucionar a mobilidade na Região Metropolitana de Belém, oferecendo uma nova alternativa de acesso à capital, desafogando o trânsito e reduzindo significativamente o tempo de deslocamento.

Além de otimizar o fluxo de veículos, a via também visa facilitar o acesso ao Porto de Vila do Conde, em Barcarena, um ponto estratégico que impacta a ligação com as regiões sul e sudeste do estado. O projeto incluiu medidas ambientais como a implantação de 34 passagens de fauna – entre 22 aéreas e 12 subterrâneas –, a preservação de áreas naturais, quatro viadutos e duas pontes, buscando equilibrar o desenvolvimento com a sustentabilidade.

A obra, cuja entrega estava prevista para outubro de 2025, antes da Conferência do Clima da ONU (COP30), foi concluída em um prazo que, segundo o governo, a posiciona cinco meses após o evento. Essa linha do tempo, no entanto, contrasta com a repercussão política que a obra gerou, como a crítica de Donald Trump em novembro de 2025, que a associou a um “grande escândalo” ambiental.

Da Inauguração aos Desafios Imediatos

Apesar das grandes expectativas, a inauguração da Avenida Liberdade foi marcada por contratempos. Motoristas e ciclistas que utilizaram a via na noite seguinte à sua abertura relataram a ausência total de iluminação em diversos trechos. A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seinfra) rapidamente atribuiu o problema ao furto de fiação elétrica em pontos específicos da extensão da rodovia.

A Seinfra garantiu que a situação foi prontamente regularizada, restaurando a iluminação na via. No entanto, outros problemas estruturais também foram observados durante as fases de obra e após a entrega, como registros de erosão e cedimento do asfalto em alguns trechos, evidenciando desafios contínuos na manutenção e estabilidade da infraestrutura recém-construída.

O Custo Socioambiental e as Vozes Críticas

Longe de ser uma unanimidade, a construção da Avenida Liberdade tem sido alvo de fortes críticas por parte de moradores e ambientalistas, que denunciam severos danos socioambientais. Famílias ribeirinhas, cuja subsistência depende diretamente da pesca e do extrativismo, relatam a destruição de seus meios de vida.

Ana Alice dos Santos, agroextrativista, expressou sua dor: “Quando eles começaram a passar a máquina, eu chorei de tanta dor, tanta tristeza, que eu via eles derrubando, sem pena, o açaí, porque aqui é o nosso ganha pão”. O pescador Ivanildo da Silva complementou, apontando para a degradação ambiental: “O peixe sumiu. O camarão, a gente pega bem pouquinho. A água está poluída”, referindo-se ao rio da região, que teria recebido rejeitos e sofrido assoreamento.

A obra suprimiu cerca de 72 hectares de floresta, atravessando uma unidade de conservação e impactando pelo menos 250 famílias de povos tradicionais. A Defensoria Pública do Estado do Pará chegou a questionar judicialmente a obra pela falta de consulta adequada às comunidades afetadas.

Repercussão Política e Controvérsias Internacionais

A complexidade da Avenida Liberdade ganhou projeção internacional quando, em novembro de 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou a obra nas redes sociais. Ele afirmou: “Devastaram a floresta do Brasil para construir uma rodovia de quatro pistas para ambientalistas. Virou um grande escândalo!”. A declaração, referindo-se à Avenida Liberdade, foi feita em um contexto que, segundo o governo brasileiro, não possuía ligação direta com a COP30.

Em resposta, o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), rebateu as críticas, sugerindo que Trump deveria “apontar caminhos contra as mudanças climáticas” e “investir mais de R$ 1 bilhão para salvar florestas no mundo”, em vez de comentar sobre estradas.

Mais recentemente, entre os dias 23 e 26 de março, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou duas ações na Justiça Federal. O objetivo é suspender as obras em áreas ocupadas por ribeirinhos e garantir a regularização fundiária de territórios tradicionais. O MPF apontou que a construção afetou historicamente as comunidades de Nossa Senhora dos Navegantes, Beira-Rio e Uriboquinha, entre Belém, Ananindeua e Marituba, sem a devida consulta, e denunciou “esbulho possessório”, desmatamento, destruição de milhares de pés de açaí e demolição de moradias sem indenização prévia ou avaliação adequada dos impactos.

A preocupação do órgão se estende ao risco de isolamento das comunidades de seus locais de cultivo e coleta devido às barreiras físicas da via. Os pedidos de urgência do MPF aguardam análise da Justiça Federal.

Desdobramentos e o Futuro da Via Expressa

Além dos problemas de iluminação e das contestações judiciais, a Avenida Liberdade tem enfrentado outros desafios práticos. Registros de alagamentos após intervenções na via já provocaram protestos, como o fechamento da Alça Viária em Marituba em uma ocasião recente. Também houve registros de erosão e cedimento de asfalto em trechos em obras, como o que pode ser observado em imagens divulgadas.

Em resposta às acusações, a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) defendeu que a obra possui “licença ambiental concedida após rigoroso processo de licenciamento, com acompanhamento técnico contínuo para controle de impactos”. A Semas também afirmou que a iniciativa foi amplamente debatida em audiências públicas com a participação da população e de representantes de comunidades tradicionais. A Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), por sua vez, informou ter enviado equipes técnicas para avaliar os impactos relatados, como os alagamentos.

Enquanto a Avenida Liberdade se estabelece como uma nova rota de mobilidade, seu percurso é marcado tanto pela promessa de progresso quanto pelos desafios ambientais, sociais e políticos que ainda demandam atenção e resolução. Para mais informações sobre infraestrutura e desenvolvimento na região, você pode consultar fontes como a Agência Pará.

Para continuar acompanhando os desdobramentos sobre a Avenida Liberdade, as discussões sobre infraestrutura na Amazônia e outras notícias relevantes do Pará e do Brasil, mantenha-se conectado ao Portal Pai D’Égua. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada para você.

Fonte: g1.globo.com

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