O município de Salvaterra, localizado no arquipélago do Marajó, tornou-se o centro de uma força-tarefa voltada à segurança alimentar e à saúde pública. Em uma iniciativa coordenada pelo Grupo de Trabalho (GT) Segurança Alimentar, órgãos estaduais como a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) e a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) promoveram ações educativas intensivas para produtores e batedores de açaí locais. O objetivo central é o controle rigoroso da cadeia produtiva do fruto, visando a prevenção da transmissão oral da doença de Chagas.
Rastreabilidade e normas sanitárias na cadeia do açaí
A realidade do processamento de açaí em Salvaterra apresenta desafios significativos para a fiscalização. Embora o município conte com 76 batedeiras cadastradas, apenas três estabelecimentos possuem licenciamento da Vigilância Sanitária Municipal. Esse cenário motivou a realização de palestras e treinamentos focados na regularização e na adoção de boas práticas, essenciais para mitigar riscos à saúde dos consumidores.
Durante as atividades, a fiscal estadual agropecuária Karen Neves enfatizou que a rastreabilidade é a ferramenta mais eficaz para garantir a segurança do fruto. A emissão da Guia de Trânsito Vegetal (GTV) e o registro detalhado da origem do açaí permitem que as autoridades monitorem o caminho do produto desde a colheita até a mesa. Essa transparência é vital para a adoção de medidas corretivas rápidas em eventuais emergências sanitárias.
O desafio da transmissão oral e o branqueamento
A doença de Chagas, historicamente associada ao inseto conhecido como barbeiro, tem no Pará um perfil epidemiológico peculiar. Cerca de 90% dos casos registrados no estado ocorrem por transmissão oral, quando o fruto é processado sem os devidos cuidados sanitários, permitindo que o vetor ou seus dejetos contaminem o alimento. O branqueamento — processo de imersão do fruto em água quente — é a etapa crucial para eliminar esses riscos.
A fiscal da Vigilância Sanitária Estadual, Dorilea Pantoja, alertou que a falta de controle sobre a origem dos frutos tem consequências graves. Ela relembrou surtos ocorridos no final de 2025, como o registrado em Ananindeua, que resultou em 47 pessoas infectadas e quatro óbitos. A dificuldade em rastrear a origem do açaí consumido nessas ocorrências reforça a necessidade de que batedores e produtores sigam rigorosamente o Decreto Estadual nº 326/2012.
Monitoramento entomológico e vigilância em saúde
Para além da fiscalização do produto, a estratégia de prevenção inclui a vigilância entomológica. A bióloga Kellen Veríssimo, do 7º Centro Regional de Saúde, anunciou a implantação do Posto de Informação de Triatomíneos (PIT) em Salvaterra. O local servirá como ponto de coleta para que a população entregue insetos suspeitos, permitindo que especialistas identifiquem as espécies presentes na região e avaliem o nível de risco epidemiológico.
Embora Salvaterra apresente uma situação considerada estável em comparação a outros municípios marajoaras, como Afuá e Muaná, a integração entre os setores de saúde e defesa agropecuária é vista como uma medida preventiva indispensável. O trabalho conjunto busca não apenas educar o setor produtivo, mas também capacitar profissionais da atenção básica para o diagnóstico precoce, garantindo que, em caso de infecção, o tratamento seja iniciado prontamente.
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