A Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) realizou uma importante intervenção em São Domingos do Capim, no nordeste paraense, resultando na apreensão e inutilização de aproximadamente 500 quilos de polpas de frutas clandestinas. A operação, ocorrida na última quinta-feira, 7 de maio, faz parte de um esforço contínuo para garantir a segurança alimentar da população e combater a proliferação da doença de Chagas, que possui forte ligação com falhas no processamento de frutos como o açaí e o buriti.
A ação conjunta entre a Adepará e a Vigilância Sanitária municipal interditou uma agroindústria que operava em total desacordo com a legislação estadual. Durante a fiscalização, os agentes constataram que os produtos não possuíam selo de inspeção sanitária nem qualquer documento que comprovasse sua origem regular. O cenário encontrado reforça a necessidade de vigilância constante sobre a cadeia produtiva de alimentos de origem vegetal no estado.
Riscos sanitários e a interdição da agroindústria
O estabelecimento fiscalizado apresentava irregularidades graves que iam além da falta de documentação. Segundo os fiscais, as polpas de buriti e açaí eram adquiridas de terceiros — vindo inclusive de navio do Amapá e de produtores ribeirinhos — e apenas embaladas no local, sem o devido controle de qualidade. A ausência de boas práticas de fabricação torna esses alimentos impróprios para o consumo humano, representando um risco direto à saúde pública.
Um dos pontos mais críticos detectados pelos agentes foi a presença de um abate clandestino de frangos e suínos no mesmo espaço onde as polpas eram manipuladas. Essa prática é terminantemente proibida pela legislação devido ao alto risco de contaminação cruzada. O contato entre resíduos de origem animal e o processamento de vegetais pode introduzir patógenos perigosos nos alimentos, potencializando surtos de doenças transmitidas por comida contaminada.
O proprietário da unidade, Lucivaldo Machado, reconheceu as falhas e manifestou a intenção de buscar a regularização. Ele afirmou que pretende finalizar as obras estruturais necessárias e adequar o processo produtivo às exigências legais após as orientações recebidas durante a fiscalização e palestras educativas promovidas por órgãos estaduais.
O combate estratégico contra a doença de Chagas
A operação em São Domingos do Capim não foi um fato isolado, mas parte de uma estratégia de prevenção à doença de Chagas. No Pará, a transmissão oral da enfermidade é uma preocupação constante, ocorrendo principalmente quando o inseto conhecido como “barbeiro” é processado acidentalmente junto com o fruto do açaí. A falta de higiene e a ausência de processos térmicos adequados permitem que o protozoário Trypanosoma cruzi chegue ao consumidor final.
Especialistas alertam que a higienização rigorosa e o processo de branqueamento — que consiste na imersão do fruto em água aquecida a temperaturas específicas — são as barreiras mais eficazes contra o parasita. Essas etapas estão previstas no Decreto Estadual nº 326/2012, que regulamenta o setor. Sem a fiscalização da Adepará e da Vigilância Sanitária, produtos clandestinos chegam ao mercado sem passar por esses filtros essenciais, colocando vidas em perigo.
Educação e conscientização para o setor produtivo
Paralelamente à fiscalização punitiva, o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) promoveu o evento “Minimização da transmissão da doença de Chagas: boas práticas de fabricação de alimentos para o açaí”. Realizado na Escola Municipal Manoel Bernardo da Luz, o encontro reuniu batedores de açaí, produtores rurais, agentes de saúde e donos de agroindústrias para discutir a importância da regularização.
A promotora de Justiça Erica Almeida destacou que o objetivo é reduzir os riscos de transmissão por meio da educação. Em São Domingos do Capim, a realidade é desafiadora: dos mais de 40 batedores de açaí em atividade, apenas dois possuem licença atualizada da Vigilância Sanitária. A regularização anual é obrigatória e garante que o profissional está seguindo os protocolos de higiene necessários para oferecer um produto seguro.
Rastreabilidade como garantia de qualidade ao consumidor
Outro pilar fundamental discutido durante as ações foi a rastreabilidade da produção. A fiscal Karen Neves enfatizou a importância da Guia de Trânsito Vegetal (GTV), documento que permite identificar toda a trajetória do fruto, desde a colheita até o destino final. Esse controle é vital para que, em caso de qualquer problema sanitário, os órgãos de defesa consigam identificar rapidamente o foco da contaminação.
O engenheiro agrônomo Waldemar Padilha reforçou que o cadastramento de todos os elos da cadeia — produtor, transportador e batedor — é uma exigência legal que beneficia tanto quem produz quanto quem consome. A formalização permite que as agroindústrias acessem linhas de crédito, conquistem novos mercados e agreguem valor ao produto paraense, transformando a segurança alimentar em um motor de desenvolvimento econômico regional.
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