Campanha da Fraternidade 2026: Belém se Mobiliza com Pastoral do Povo de Rua para Enfrentar Crise Habitacional

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Fernando Assunção (Especial para O Liberal)
Fernando Assunção (Especial para O Liberal)

A Campanha da Fraternidade (CF) de 2026, lançada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sob o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14), tem provocado uma reflexão profunda sobre o direito fundamental à moradia digna no país. Em Belém, a iniciativa ganha um contorno ainda mais urgente com a destacada atuação da Pastoral do Povo de Rua, que se posiciona na linha de frente para acolher e lutar por aqueles que vivem a dura realidade das ruas, transformando o debate nacional em ação concreta nas comunidades locais.

Tradicionalmente realizada anualmente pela Igreja Católica no Brasil, a Campanha da Fraternidade se estabeleceu como um poderoso instrumento de conscientização social e transformação. Desde sua criação, ela aborda temas relevantes para a sociedade brasileira, convidando os fiéis e a população em geral a uma profunda reflexão e a ações práticas de solidariedade. A escolha do tema da moradia para 2026 sublinha a crescente preocupação com o déficit habitacional e o alarmante aumento da população em situação de rua, um desafio que se agrava em centros urbanos por todo o Brasil.

Belém e o Chamado à Ação Coletiva

Na Arquidiocese de Belém, o lançamento da campanha foi marcado por celebrações simultâneas em suas oito Regiões Episcopais, unindo milhares de fiéis de paróquias, pastorais, movimentos e novas comunidades. A mobilização massiva não apenas difundiu a mensagem da campanha, mas também abriu um espaço crucial para o debate sobre as políticas públicas necessárias e as ações concretas que podem enfrentar a complexa questão do déficit habitacional na capital paraense, onde a crise da moradia é um problema visível e multifacetado.

Em sintonia com a temática nacional, a Arquidiocese de Belém tem dado especial destaque à Pastoral do Povo de Rua, coordenada pela missionária do Coração Eucarístico, Eugênia Costa. Embora a pastoral tenha uma história de mais de duas décadas em nível nacional, sua estruturação mais efetiva em Belém teve início em abril de 2025, impulsionada pela crescente visibilidade da população em situação de vulnerabilidade na cidade. O objetivo primordial da equipe é ser uma presença constante e acolhedora, incentivando o acesso a direitos e políticas públicas frequentemente inacessíveis para essa parcela da população.

Os voluntários da pastoral dedicam as quartas-feiras e os domingos, a partir das 16h, para ir às ruas, praças e marquises. Mais do que oferecer assistência imediata, o foco principal é o diálogo, a escuta atenta das histórias de vida e a compreensão dos múltiplos fatores que levaram cada indivíduo à situação de rua. “Mais do que assistência imediata, queremos ser escuta e presença”, reforça Eugênia Costa, destacando o valor da dignidade e do reconhecimento humano que a simples atenção pode proporcionar em um contexto de invisibilidade.

Projetos e Desafios para a Dignidade Habitacional

Um dos projetos mais ambiciosos em andamento da Pastoral do Povo de Rua é a criação da “Casa do Pão”, um espaço de acolhimento que funcionará como ponto de apoio multifuncional. A ideia é que a casa ofereça rodas de conversa, orientações sobre direitos básicos e encaminhamentos para serviços públicos essenciais, como restaurantes populares, abrigos municipais e programas de saúde e assistência social, atuando como uma ponte entre a rua e a reintegração social. A Pastoral, ainda sem sede própria, busca ativamente parcerias para viabilizar este local crucial.

A prioridade para a criação desse espaço é reconhecida e acompanhada de perto pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Belém, Dom Paulo Andreolli, o que reforça o compromisso institucional com a causa. Além da Casa do Pão, a Pastoral planeja a criação de um fundo de solidariedade, alimentado por campanhas contínuas ao longo do ano. Este fundo será vital para sustentar e expandir as atividades junto às pessoas em situação de rua, garantindo a continuidade e a amplitude do trabalho realizado pelos voluntários.

A Crise da Moradia: Números e Reflexões

Os números refletem a gravidade da situação: o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua aponta que Belém possui 1.474 pessoas vivendo nas ruas, enquanto o Brasil soma 327.925. A coordenação da Pastoral alerta que esta população tem crescido não apenas em nível local e nacional, mas em escala global. Irmã Eugênia ressalta que, quanto mais tempo uma pessoa permanece nas ruas, maiores são as barreiras para sair dessa condição, enfrentando não só a vulnerabilidade social e a falta de recursos, mas também a violência cotidiana e a dolorosa invisibilidade imposta pela sociedade.

“A Campanha da Fraternidade vem ajudar a gente a perceber essa realidade que muitas vezes é invisível e a pensar caminhos para superar esse problema”, destaca a missionária, enfatizando a importância da campanha como catalisador de mudança de percepção e ação. Padre Renilson Macedo, coordenador regional das Pastorais da CNBB, reforça a gravidade da situação: “A rua não é moradia, por isso foi abolido o termo ‘morador de rua’”. Ele frisa que o termo correto é “pessoa em situação de rua”, sublinhando a natureza temporária e indesejável dessa condição, que representa uma profunda degradação do direito à dignidade humana.

Belém: Capital Favelizada e o Direito à Moradia Digna

A escolha do tema da moradia para a Campanha da Fraternidade de 2026, segundo Padre Renilson Macedo, é resultado de estudos e levantamento de dados que revelam um cenário preocupante. Belém, por exemplo, é considerada a capital mais favelizada do Brasil, com cerca de 55% a 60% de sua população residindo em aglomerados subnormais – uma designação técnica para favelas e comunidades precárias, conforme dados do IBGE. Essa realidade, longe de ser um motivo de orgulho, é um desafio coletivo que exige a atenção da Igreja, da sociedade civil e, de forma contundente, da classe governamental.

Para o sacerdote, a questão não se resume apenas a ter um teto, mas a ter uma moradia que seja verdadeiramente digna. “A pessoa que habita moradias precárias é portadora de direitos fundamentais. Para nós, que somos religiosos, são imagens e semelhanças de Deus. Isso toca não apenas os direitos humanos, mas também aquilo que é sagrado, que é o cuidado da vida em todos os seus estágios”, explica Padre Renilson, elevando o debate para além da esfera social e econômica, inserindo-o no campo da ética e da fé. A Campanha da Fraternidade 2026, portanto, surge como um chamado à responsabilidade coletiva, unindo fé e compromisso social em favor dos que mais precisam, especialmente no contexto da Quaresma, um período de conversão e renovação.

A mobilização em Belém, com a atuação dedicada da Pastoral do Povo de Rua, exemplifica como o tema da moradia transcende as celebrações litúrgicas e se enraíza nas ações cotidianas de solidariedade. Para continuar acompanhando as iniciativas da Campanha da Fraternidade, os desafios da crise habitacional e outras notícias relevantes, o Portal Pai D’Égua oferece uma cobertura aprofundada e contextualizada sobre os temas que impactam a sociedade. Mantenha-se informado conosco e faça parte desse debate vital.

Fonte: https://www.oliberal.com

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