Pará Ocupa o 2º Lugar em Conflitos no Campo e Registra Aumento de 75% nos Assassinatos em 2025, Alerta CPT

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Gabriel Pires
Gabriel Pires

O cenário de violência no campo paraense atinge níveis alarmantes, conforme o mais recente levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT). A organização, que atua na defesa dos direitos dos povos do campo, das águas e das florestas, revelou dados preocupantes que posicionam o Pará como um dos estados mais críticos em conflitos agrários no Brasil. Para o ano de 2025, os registros apontam um crescimento significativo de 75% nos assassinatos em áreas rurais, consolidando uma triste realidade que se arrasta por décadas e expõe a vulnerabilidade das comunidades tradicionais frente a interesses econômicos predatórios.

A Escalada da Violência: Assassinatos no Campo em 2025

O ano de 2025 já registra um aumento drástico na violência rural do Pará. Com sete assassinatos contabilizados até o momento, o estado testemunha uma elevação de 75% em comparação com o ano anterior, 2024, quando quatro mortes foram notificadas. Essa intensificação da brutalidade não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo de um histórico de disputas e violações. José Batista Afonso, assessor jurídico da CPT no sul e sudeste do Pará, enfatiza que, desde o início dos registros da entidade sobre crimes no campo, o Pará tem se mantido tristemente na liderança dos índices mais severos de violência, abrangendo desde trabalho escravo e homicídios até complexos conflitos pela posse da terra e diversas outras violações de direitos humanos.

Pará: Segundo no Ranking Nacional de Conflitos Rurais

Para além dos assassinatos, a dimensão dos conflitos no campo é igualmente grave. O levantamento da CPT, referente a 2024 (com dados de 2025 a serem divulgados em abril), coloca o Pará na segunda posição nacional em número de conflitos agrários, com um total de 314 ocorrências. Este número representa um crescimento de 32% em relação a 2023, quando foram registrados 237 casos. Esses embates envolvem uma série de questões, como disputas por terras, acesso a recursos naturais e a própria existência de comunidades tradicionais. Apenas o Maranhão superou o Pará neste ranking, com 420 registros, enquanto a Bahia aparece em terceiro lugar, com 171 casos.

Uma Década de Lutas e Perdas: O Histórico Recente

Analisando o período de 2015 a 2024, a CPT revela que o Pará acumulou um total de 84 mortes diretamente ligadas a conflitos no campo. Este recorte de dez anos sublinha a persistência e a gravidade da questão, com 2017 se destacando como o ano mais violento da década, registrando 23 assassinatos. Tal histórico não apenas evidencia a continuidade da violência, mas também aponta para a ineficácia das políticas públicas e da fiscalização em coibir tais práticas e proteger as populações mais vulneráveis.

Conflitos Pela Água: Uma Nova Frente de Tensão e Contaminação

Em 2024, o Pará também se destacou, liderando o ranking de conflitos pela água no país, com 65 ocorrências. Deste total, seis situações foram especificamente relacionadas à contaminação por agrotóxicos, impactando diretamente 438 famílias em diversos municípios paraenses. As regiões mais atingidas incluem o Marajó (Chaves), o Baixo Amazonas (Mojuí dos Campos e Santarém) e o Nordeste Paraense (Tailândia e Tomé-Açu). A contaminação da água representa uma ameaça multifacetada: além de inviabilizar o acesso a um recurso essencial para a vida, compromete a saúde das comunidades, a pesca e a agricultura de subsistência, elementos cruciais para a sobrevivência e a cultura dessas populações. É um conflito que afeta a própria sustentabilidade e a dignidade humana.

As Raízes Profundas da Violência na Análise da CPT

José Batista Afonso reitera que a hegemonia do Pará nos índices mais graves de violência rural abrange uma gama complexa de crimes: desde o trabalho escravo contemporâneo e os homicídios, passando por intensas disputas pela posse da terra, até outras inumeráveis violações de direitos humanos. Ele destaca que, nos últimos 45 anos, o estado registrou 59 chacinas e massacres, além do assassinato de 137 lideranças de movimentos sociais, advogados e religiosos, figuras que dedicam suas vidas à defesa dos direitos e do território. Mais de 200 trabalhadores submetidos ao trabalho escravo foram mortos nesse mesmo período, um dado que ressalta a brutalidade e a impunidade que permeiam o campo paraense.

O Preço da Expansão: Agronegócio e Grandes Capitais na Amazônia

Os elevados índices de violações de direitos humanos no campo paraense, segundo o assessor jurídico da CPT, não são aleatórios, mas estão intrinsecamente ligados ao contexto da expansão agressiva do agronegócio e dos interesses do grande capital sobre a Amazônia. A região é um foco de cobiça devido à sua vasta riqueza natural e terras ainda não destinadas. Como observa José Batista, “Se a gente pegar os dados de conflito em 2024, dos 2.185 conflitos registrados em todo o Brasil, 998 ocorreram na Amazônia. E, desses 998, 314 aconteceram somente no estado do Pará.”

Esta concentração de conflitos na Amazônia e, em particular, no Pará, revela que a região se tornou um palco de embates permanentes. A vasta extensão de terras públicas, os abundantes recursos madeireiros e minerais, e as áreas propícias à expansão de monocultivos e à criação extensiva de gado atraem grandes corporações e investidores. Essa pressão por recursos e terras gera uma situação de conflito contínuo e violento, onde a lógica do lucro se sobrepõe à proteção ambiental e, principalmente, aos direitos e à vida das comunidades que historicamente ocupam e dependem desses territórios.

Vítimas Invisíveis: O Impacto nas Comunidades Tradicionais

As populações locais são as principais vítimas desses confrontos. José Batista explica que esses embates envolvem comunidades que já residem na região há gerações, como ribeirinhos, quilombolas e populações indígenas, cuja subsistência e cultura estão diretamente ligadas à terra. Além deles, trabalhadores rurais sem-terra, que migram em busca de oportunidades e, frequentemente, acabam se engajando em movimentos sociais, também são alvos. Seja na luta por moradia digna ou por condições mínimas para suas famílias, esses grupos se veem em uma batalha desigual contra forças muito maiores, muitas vezes armadas e amparadas por uma estrutura que dificulta a garantia de seus direitos.

A Disputa Pela Terra: Um Retrato da Amazônia Legal

Dos 2.185 conflitos registrados no campo brasileiro em 2024, mais da metade (1.180) concentrou-se na Amazônia Legal, sendo 998 diretamente relacionados à disputa pela terra. Este dado é alarmante e reflete a intensa pressão sobre a região. Deste montante, 980 casos representaram violência contra a ocupação e a posse de terras por comunidades, enquanto apenas 18 corresponderam a ações de resistência dessas populações – incluindo 12 ocupações e 6 acampamentos. O número de episódios de violência por terra na Amazônia Legal teve um aumento de quase 13% em 2024, alcançando o segundo maior patamar da década, perdendo apenas para 2020. Isso evidencia uma escalada contínua e preocupante.

Entre os estados da Amazônia Legal, o Maranhão liderou o ranking com 363 registros de violência por terra, seguido de perto pelo Pará, com 234 casos. Rondônia (119), Amazonas (117), Mato Grosso (102) e Acre (59) também apresentaram números significativos. Nos últimos dez anos, o Pará mostrou uma predominância de ações violentas em conflitos por terra praticadas majoritariamente por fazendeiros, responsáveis por cerca de 363 ocorrências. Em seguida, figuram os grileiros, com aproximadamente 350 registros, e os empresários, que somam 241 casos. Estes atores representam as diversas facetas da expansão ilegal e violenta sobre as terras, movidos pela busca por lucro e pela ausência de fiscalização efetiva.

A Dicotomia da Terra: Negócio ou Direito?

No cerne do conflito agrário reside uma dicotomia fundamental: a disputa entre duas visões de mundo diametralmente opostas. De um lado, há uma perspectiva que enxerga a terra primordialmente como um negócio, um ativo financeiro a ser explorado e monetizado, intrinsecamente ligado aos interesses do agronegócio, da especulação imobiliária e da produção em larga escala. De outro, está a visão das comunidades tradicionais e dos trabalhadores rurais, para quem a terra é um direito inalienável, a base da existência, da cultura e da sobrevivência, não apenas como fonte de alimento, mas como espaço de vida, ancestralidade e identidade. É nesse embate ideológico e material que se forjam os conflitos mais brutais e persistentes no campo brasileiro, e especialmente no Pará.

A Comissão Pastoral da Terra, com seus dados e análises, não apenas expõe a gravidade da situação, mas também lança um alerta urgente sobre a necessidade de políticas públicas mais eficazes, fiscalização rigorosa e uma profunda reavaliação do modelo de desenvolvimento que tem marginalizado e violentado aqueles que vivem e dependem da terra. A violência no campo paraense é um reflexo do descaso e da priorização de interesses econômicos em detrimento da vida e dos direitos humanos. Para compreender a fundo as complexidades desses conflitos e aprofundar seu conhecimento sobre as realidades que moldam o Pará e a Amazônia, continue navegando pelo Portal Pai D'Égua e descubra análises exclusivas e reportagens investigativas que trazem luz a esses temas cruciais.

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