O inquérito que apura as circunstâncias da morte do assistente administrativo Marcello Victor Carvalho de Araújo, de 24 anos, ganhou um novo e crucial elemento: o laudo de necropsia. O documento pericial foi anexado ao processo investigatório sobre o falecimento do jovem, ocorrido durante uma operação da Polícia Federal (PF) denominada “Eclesiastes”. As conclusões do relatório forense, agora públicas, indicam que Marcello Victor foi atingido por dois disparos em 8 de outubro, dia em que agentes de segurança adentraram o apartamento de sua família. A divulgação do laudo intensifica o debate e as divergências entre a versão apresentada pelas forças policiais e a sustentada pela família da vítima e sua defesa jurídica, prometendo ser um ponto central nos desdobramentos da apuração.
Análise Forense Detalha Mecanismo da Morte
Os Dois Disparos e Suas Implicações
O laudo de necropsia, peça fundamental em qualquer investigação criminal, descreve minuciosamente os ferimentos que levaram à morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo. De acordo com o relatório pericial, o jovem foi atingido por dois tiros, cada um com características distintas que revelam informações importantes sobre a dinâmica do confronto. O primeiro disparo, segundo o documento, foi efetuado por uma pistola Glock de calibre 9 mm. A análise forense aponta que este tiro foi dado à queima-roupa, ou seja, a uma distância extremamente próxima da vítima. A trajetória indicada é de cima para baixo, atravessando o queixo de Marcello e alojando-se próximo ao ombro. É importante notar que o laudo categoriza este primeiro ferimento como não letal, significando que, por si só, não teria capacidade de ceifar a vida do assistente administrativo.
Contudo, a sequência dos fatos, conforme delineada pelo laudo, muda drasticamente com o segundo disparo. Este, por sua vez, foi proveniente de um fuzil e disparado a uma distância consideravelmente maior em relação ao primeiro. A trajetória do segundo tiro foi descrita como de baixo para cima. O relatório enfatiza a alta intensidade desse disparo de fuzil, atribuindo a ele a causa direta da morte de Marcello Victor. O projétil atingiu órgãos vitais como o coração e o fígado, provocando lesões severas e irreversíveis. A distinção entre os dois disparos – um de pistola à queima-roupa e não letal, e outro de fuzil a maior distância e fatal – é um dos pontos mais relevantes do laudo, fornecendo subsídios técnicos para a reconstituição dos eventos e para as argumentações de ambas as partes envolvidas no processo. A análise detalhada da natureza e da trajetória de cada projétil será crucial para determinar a legalidade e a necessidade do uso da força na ocasião.
Contradições e Versões Divergentes no Inquérito
A Narrativa Policial Contraposta à Tese da Defesa
A divulgação do laudo de necropsia intensifica o cenário de versões conflitantes sobre os acontecimentos que culminaram na morte de Marcello Victor. A Polícia Federal, em sua narrativa inicial, alegou que o jovem teria reagido à operação, agredindo um dos agentes com um soco. Essa suposta reação, conforme a corporação, teria levado os policiais a revidarem, resultando na fatalidade. A instituição classificou a morte de Marcello como um trágico desfecho decorrente da ocorrência e da atitude da vítima. A Operação “Eclesiastes”, contexto em que os fatos ocorreram, tinha como objetivo desarticular uma sofisticada organização criminosa especializada em tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro, e durante a ação, Marcelo Pantoja Rabelo, conhecido como ‘Marcelo da Sucata’, foi preso no mesmo local onde a morte ocorreu, evidenciando a complexidade do ambiente.
Entretanto, a acusação, representada pelo advogado da família, Jonhatan da Costa, contesta veementemente a versão policial. Após ter acesso ao inquérito e ao laudo de necropsia, a defesa aponta que o relatório pericial corrobora suas argumentações. O advogado alega que não foram encontrados indícios que sustentem a versão de agressão por parte de Marcello Victor. Especificamente, ele menciona a ausência de digitais da vítima na arma de um dos policiais e a falta de lesões na mão de Marcello que indicassem a aplicação de um soco. A interpretação da defesa sobre o laudo é crucial: o primeiro tiro, de pistola e não letal, já teria neutralizado Marcello, tornando o segundo disparo, de fuzil e fatal, injustificável. “O laudo corrobora que o Marcello em momento algum foi para cima dos policiais”, reforça o advogado, acrescentando que “o primeiro tiro não foi letal e não matou o Marcello, foi o segundo disparo de fuzil que foi o mais enérgico. Não precisaria desse segundo disparo para contê-lo”. Essa divergência central entre as versões aponta para a necessidade de uma investigação aprofundada que esclareça a real dinâmica dos eventos e a proporcionalidade do uso da força policial.
Desdobramentos Jurídicos e a Busca por Justiça
O cenário jurídico em torno da morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo entra em uma fase de intensa atividade após a divulgação do laudo de necropsia. A família da vítima, por meio de seu advogado, Jonhatan da Costa, manifesta a intenção de solicitar formalmente uma cópia completa do laudo, pois o acesso até o momento foi restrito à sua visualização dentro do inquérito. Além disso, a defesa enfatiza a urgência na obtenção do laudo da cena do crime, um documento que se revela essencial para determinar as posições dos envolvidos no momento dos disparos, fornecendo um panorama espacial fundamental para a compreensão dos eventos. A reconstrução da cena e a validação das narrativas dependem diretamente desses relatórios periciais.
A próxima etapa crucial para a acusação será uma reunião entre o advogado da família e o procurador do Ministério Público Federal (MPF) responsável pelo caso. Este encontro, agendado para a próxima semana, tem como objetivo alinhar as questões da acusação e discutir os próximos passos da investigação, considerando as novas informações trazidas pelo laudo. A atuação do MPF é de suma importância neste processo, dada sua prerrogativa de fiscalizar a lei e a correta aplicação da justiça, especialmente em casos que envolvem operações policiais e mortes. Enquanto os trâmites legais avançam, a família de Marcello Victor segue profundamente abalada. O advogado reporta que a mãe do jovem continua sofrendo intensamente pela maneira trágica e questionável como perdeu o filho, buscando respostas e justiça para o ocorrido. O caso continua sob investigação, e a sociedade aguarda por um desfecho claro e imparcial que determine as responsabilidades.
Fonte: https://www.oliberal.com