O Rio de Janeiro se configura como um dos principais destinos para criminosos de outros estados, inclusive do Pará, que buscam tanto refúgio quanto o fortalecimento de laços com facções locais. A análise é de Roberto Magno Reis Netto, oficial de justiça e pesquisador da área de segurança pública, que descreve o fenômeno como um intenso processo migratório do crime organizado nos últimos anos.
A avaliação do especialista ganha destaque após a megaoperação de combate às facções criminosas, que resultou em mais de 100 mortos no Rio de Janeiro. A Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará (Segup) informou que a ação tinha como alvo paraenses ligados a facções criminosas escondidos no Rio. A Segup reportou que ao menos 15 paraenses morreram e cinco foram presos na operação.
Segundo Roberto Magno, o Rio de Janeiro atrai criminosos foragidos por diversos fatores. A presença consolidada de facções e milícias dificulta a atuação das forças de segurança nas comunidades dominadas. Para ele, a longa atuação de facções e a coexistência com milícias que envolvem o Estado dificultam o domínio dos morros pela Segurança Pública e a entrada nesses locais sem megaoperações e mortes.
O pesquisador aponta que esse deslocamento de criminosos não se restringe ao Rio de Janeiro, ocorrendo também em estados com ‘bunkers’ de facções bem estabelecidos, como Santa Catarina. O diferencial do Rio é a combinação de estrutura criminal consolidada e dificuldade de enfrentamento policial, transformando o estado em um abrigo estratégico.
Além do refúgio, a relação entre o Comando Vermelho do Pará e o do Rio oferece vantagens logísticas. Existe uma rede de apoio, não só para refúgio e trânsito, mas também para o tráfico de drogas e armas. Dominar a rota do Pará para o tráfico de cocaína e skunk é relevante para o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que envia armas em contrapartida.
Roberto Magno insere o fenômeno em uma dinâmica de “territorialidade em rede do crime”, caracterizada pela interconexão entre organizações criminosas de diferentes estados. O trabalho de inteligência e a cooperação policial são importantes para rastrear e capturar foragidos, mas o problema é estrutural e exige estratégias integradas e permanentes.
A inteligência é essencial para detectar essas pessoas, compreender as redes de tráfico e a organização dos grupos, e combatê-los efetivamente.
O Comando Vermelho (CV), uma das maiores e mais antigas facções criminosas do Brasil, surgiu no fim da década de 1970 no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Sua atuação abrange o tráfico de drogas, roubos, sequestros e armas de fogo. Na época, presos políticos da ditadura militar (1964–1985) foram colocados nas mesmas celas que criminosos comuns. Os políticos ensinaram organização, disciplina e solidariedade, enquanto os criminosos ensinaram sobre o mundo do crime.
Dessa união surgiu a Falange Vermelha, criada por Rogério Lemgruber, que depois evoluiu para o Comando Vermelho.
O CV tem papel central na economia paralela do tráfico de drogas no Rio, controlando rotas de entrada de entorpecentes, especialmente da Bolívia, Peru e Colômbia, e distribuindo a mercadoria para comunidades e outros estados.
Para Aiala Colares, geógrafo, doutor em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental (NAEA-UFPA), professor, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula, a difusão do Comando Vermelho no Brasil está relacionada ao “encarceramento em massa da população”, o que tornou o Pará o "principal aliado" da facção no país, abrindo uma rota para membros procurarem refúgio no Rio. Essa relação estratégica busca alcançar as principais rotas da cocaína e de tráfico de armas que passam pela região amazônica.
Segundo Colares, o Brasil tem a terceira maior população carcerária do planeta, com mais de 800 mil pessoas encarceradas. A aliança entre facções, como o CV e o PCC, ocorre dentro dos presídios. Nesse contexto, o Pará se tornou um braço do PCC na região Norte, o que explica em parte o fato de membros do Comando Vermelho irem para o Rio de Janeiro.
Colares afirma que, para combater o tráfico de drogas e o crime organizado, é preciso entender que eles atuam além das periferias. O Rio se tornou estratégico por ser um local onde as bases operacionais nas favelas representam a massa operacional da mão de obra barata e descartável do crime organizado.
Fonte: www.oliberal.com