Crise humanitária e descumprimento de acordos judiciais
A Justiça Federal determinou a aplicação de multas que, somadas, chegam a R$ 2 milhões contra o governo do Pará e a Prefeitura de Belém. A sanção é resultado do descumprimento de decisões judiciais e de um acordo previamente homologado que visava garantir condições dignas de acolhimento à população indígena Warao, que vive em situação de refúgio e migração na capital paraense.
A ação, movida pelo Ministério Público Federal (MPF), aponta a inércia do poder público diante de uma situação de vulnerabilidade extrema. Segundo a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), famílias indígenas têm sido submetidas a condições precárias em abrigos improvisados, agravadas pelo fechamento unilateral de uma casa de triagem que era essencial para o suporte inicial aos recém-chegados.
O impasse sobre a casa de triagem e a gestão estadual
O governo do Pará tentou alterar as diretrizes do acordo sem o devido diálogo com as partes envolvidas. A proposta estadual consistia em substituir a manutenção direta de uma estrutura de triagem pelo repasse de R$ 1 milhão à Prefeitura de Belém. No entanto, a Justiça Federal rejeitou a manobra, destacando que mudanças dessa natureza exigem consulta prévia ao MPF e às lideranças indígenas.
A decisão judicial reforça que o acordo homologado não pode ser modificado de forma arbitrária. O Estado recebeu um novo prazo de 60 dias para retomar a manutenção da casa de triagem. Caso a determinação não seja cumprida, a multa diária fixada é de R$ 5 mil, visando forçar o cumprimento das obrigações assumidas para garantir a dignidade humana do povo Warao.
Responsabilidade municipal e o plano de acolhimento
A Prefeitura de Belém também foi alvo de punição no valor de R$ 1 milhão. O município foi penalizado por não apresentar um plano de reestruturação das casas de acolhimento locais, conforme exigido anteriormente. O MPF ressaltou que a gestão municipal falhou ao não implementar as medidas determinadas e ao se ausentar de reuniões cruciais para o debate do projeto.
A Fundação Papa João XXIII (Funpapa), embora citada no processo, teve a responsabilidade pela multa concentrada na administração municipal para evitar desequilíbrios financeiros na execução dos serviços. Agora, o município tem 60 dias para apresentar um cronograma detalhado, que deve obrigatoriamente passar por consulta livre e informada junto à comunidade indígena, respeitando seus protocolos culturais.
Repasses federais e o destino dos recursos das multas
Diferente das esferas estadual e municipal, o governo federal foi mantido fora das sanções neste momento. A Justiça reconheceu a comprovação de repasses anuais de R$ 1,4 milhão destinados a políticas assistenciais para os anos de 2024 e 2025. Contudo, a União deverá comprovar, em até 30 dias, a transferência dos recursos referentes a 2026, sob pena de multa diária.
Os valores arrecadados com as multas aplicadas ao Estado e ao Município, que totalizam R$ 2 milhões, não retornarão aos cofres públicos de forma genérica. Conforme o Ministério Público Federal, o montante deverá ser revertido em benefício direto dos indígenas afetados pela crise. A destinação final será definida pelo MPF após o encerramento dos recursos processuais.
O Portal Pai D’Égua segue acompanhando o desdobramento deste caso e a situação das famílias Warao em Belém. Continue conosco para se manter informado sobre esta e outras pautas de relevância social e política no Pará.
As informações apresentadas nesta matéria são baseadas em dados divulgados por autoridades competentes. O caso pode receber atualizações conforme o avanço das investigações.