Impacto severo na saúde materna e infantil
Um estudo conduzido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) trouxe à tona uma realidade alarmante para o povo Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará. Dados preliminares do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia indicam que gestantes da etnia apresentam níveis de mercúrio no organismo quatro vezes e meio superiores ao limite de segurança estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Enquanto o parâmetro de segurança é de 2 microgramas por grama (µg/g) de cabelo, a média encontrada entre as mulheres monitoradas é de 9,1 µg/g. Em casos extremos, a concentração chega a 39,9 µg/g, o que representa 20 vezes o nível tolerável. A situação se estende aos recém-nascidos, com cerca de 90% dos bebês já nascendo com o metal no organismo, absorvido via placenta.
Riscos neurológicos e o futuro das novas gerações
O coordenador da pesquisa, Paulo Basta, alerta para as consequências irreversíveis dessa exposição. O mercúrio, ao se converter em neurotoxina, atinge diretamente o sistema nervoso central, podendo causar retardo no neurodesenvolvimento, anomalias congênitas e síndromes raras. O monitoramento contínuo das crianças nos primeiros dois anos de vida busca mapear os impactos no crescimento e na saúde física desses indivíduos.
A falta de um sistema de notificação oficial para casos de contaminação por mercúrio no Brasil dificulta o dimensionamento do problema. Atualmente, há 751 casos confirmados laboratorialmente em diversas regiões, incluindo o Pará e Roraima, onde o povo Yanomami também enfrenta graves desafios sanitários. A alta demanda por cadeiras de rodas no distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós é um dos indicadores da gravidade da situação.
O garimpo ilegal como vetor de contaminação
A contaminação está intrinsecamente ligada à atividade do garimpo ilegal de ouro, que utiliza o mercúrio para o processo de separação do metal precioso. O resíduo tóxico é despejado nos rios, contaminando a fauna aquática. Como o peixe é a base da dieta das comunidades Munduruku, a ingestão constante do alimento torna-se a principal via de contaminação humana.
Alessandra Korap Munduruku, liderança da Associação Indígena Pariri, relata o sentimento de impotência diante do diagnóstico. “O coração dói quando vemos a situação do povo, porque eles não têm como sair do território”, afirma. A liderança questiona o modelo de desenvolvimento que prioriza a exploração econômica em detrimento da vida, dos rios e da floresta, destacando que a vulnerabilidade imposta às comunidades indígenas é uma violação contínua de direitos.
Caminhos para a visibilidade e proteção
A divulgação desses dados durante a Rio Nature & Climate Week reforça a urgência de políticas públicas voltadas à saúde indígena e ao combate efetivo ao garimpo. A ciência comunitária, aliada ao saber tradicional, tem sido fundamental para dar visibilidade a um problema que, por muito tempo, permaneceu invisibilizado nas estatísticas oficiais do país.
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As informações apresentadas nesta matéria são baseadas em dados divulgados por autoridades competentes. O caso pode receber atualizações conforme o avanço das investigações.