Melgaço, um município localizado no coração do arquipélago do Marajó, no Pará, alcançou um marco significativo ao ser agraciado com a prestigiosa Medalha Paulo Freire. A premiação, concedida pelo Ministério da Educação (MEC), reconhece as experiências mais inovadoras e bem-sucedidas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em todo o país. A conquista de Melgaço, que se destaca entre as três cidades paraenses homenageadas – ao lado de Paragominas e Vitória do Xingu –, é fruto do programa “Alfabetiza Melgaço EJA – Movimento Rios que Alfabetizam”, uma iniciativa que tem transformado a realidade educacional da região.
O projeto, idealizado pelo professor Agenor Sarraf e implementado pela Secretaria Municipal de Educação, nasceu da urgente necessidade de combater o analfabetismo em uma das regiões mais desafiadoras do Brasil. Dados do próprio MEC revelam que o arquipélago do Marajó abriga mais de 60 mil pessoas não alfabetizadas acima de 15 anos, sendo que cerca de 50 mil delas residem nos chamados “territórios das florestas”, um grupo de 11 municípios da região. Diante desse cenário, a proposta de Sarraf foi criar um programa que dialogasse diretamente com a vida e os saberes das comunidades ribeirinhas, um modelo de alfabetização genuinamente amazônico.
O “Rios que Alfabetizam”: uma pedagogia para a Amazônia
A essência do “Alfabetiza Melgaço EJA – Movimento Rios que Alfabetizam” reside em sua profunda conexão com a pedagogia de Paulo Freire e a filosofia da “Mãe-Terra”. Longe de um modelo tradicional de ensino, o programa foi meticulosamente pensado para aproximar a alfabetização da realidade cotidiana das populações ribeirinhas do Marajó. Isso significa que, além das fundamentais aulas de leitura e escrita, os estudantes são engajados em atividades práticas que refletem seu dia a dia e suas tradições.
Entre as práticas integradas ao currículo estão o manejo de açaizais, a criação de peixes e camarão, o desenvolvimento de sistemas hidropônicos e outras técnicas agroflorestais. Essa abordagem não apenas torna o aprendizado mais relevante e interessante, mas também valoriza os conhecimentos locais e as habilidades já presentes nas comunidades. O programa vai além, promovendo feiras da agricultura familiar, onde alunos e professores organizam a exposição e venda da produção local, fomentando a troca de saberes e fortalecendo a participação comunitária. Essa integração entre educação e produção local é um dos pilares que garantem a sustentabilidade e o engajamento dos participantes.
Transformação em números: o impacto do programa
Os resultados do programa “Alfabetiza Melgaço EJA” são notáveis e demonstram o poder da iniciativa. Em 2024, o município contava com apenas 164 estudantes matriculados na EJA. Com a implantação do programa, houve uma expansão exponencial: foram criadas 49 turmas em comunidades rurais dos territórios do Tajapuru, Anapu, Campinas e Lagunas, mobilizando mais de 60 profissionais da educação. Esse esforço resultou em um salto para mais de 900 alunos matriculados em 2025. O crescimento continuou em 2026, com o número de turmas atingindo 73 e mais de 80 profissionais envolvidos, segundo a coordenação do programa.
Para garantir a permanência e o sucesso dos alunos, a gestão do projeto implementou uma bolsa de incentivo de R$ 200 para aqueles que mantêm uma frequência mínima de 75% nas aulas. Além do suporte financeiro, o programa oferece merenda escolar e apoio ao transporte dos estudantes, removendo barreiras que historicamente dificultam o acesso e a continuidade da educação em regiões remotas. Essas medidas são cruciais para assegurar que os ribeirinhos possam se dedicar aos estudos sem comprometer suas necessidades básicas ou as demandas de suas famílias.
Reconhecimento nacional e a virada de Melgaço
A Medalha Paulo Freire, cujo resultado final foi divulgado pelo Ministério da Educação, reconheceu um total de 20 iniciativas de alfabetização de jovens, adultos e idosos em todo o país. Para ser elegível a essa honraria, os municípios devem aderir ao Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo, expandir suas matrículas na EJA, alcançar metas no Índice de Esforço de Alfabetização (IEA) e apresentar uma experiência educacional comprovadamente bem-sucedida.
A candidatura de Melgaço destacou-se por diversos critérios, incluindo o aumento expressivo das matrículas; a formação de turmas em comunidades rurais; a valorização profissional; um currículo adaptado à realidade amazônica; a integração entre educação e atividades agroflorestais; e o incentivo financeiro aos estudantes. Como parte do reconhecimento, além da medalha, o município receberá cerca de R$ 200 mil do Plano de Ações Articuladas (PAR), um recurso vital para o fortalecimento contínuo da EJA.
Este prêmio tem um significado ainda mais profundo para Melgaço. Em 2015, um levantamento realizado a pedido do g1 pelo Cemaden, com dados do Inpe, apontou que Melgaço possuía o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país desde 2013. Localizado a aproximadamente 250 quilômetros de Belém, o município é cercado pela floresta, sem acesso por terra, com a maioria das moradias sendo palafitas e muitas sem acesso à energia elétrica. A gestão do projeto enfatiza que o reconhecimento representa uma mudança simbólica, transformando a percepção de um município historicamente marcado por baixos indicadores sociais em um exemplo nacional de inovação educacional.
O Portal Pai D’Égua continuará acompanhando de perto os desdobramentos e o impacto de iniciativas como a de Melgaço, que demonstram o potencial transformador da educação. Mantenha-se informado com nossa cobertura completa, que traz notícias relevantes, atuais e contextualizadas, abordando os temas que realmente importam para você e para a nossa região.